VICENTE DE PAULO ZICA

PERDÃO: PREVENÇÃO E CURA DE DOENÇAS


Perdoar, do latim, per (por) e donum (dom, presente, dádiva) e, ainda, entendido como derivado do verbo dare (dar, doar). É uma doação para interromper o ódio e o desejo de vingança.

Quem de nós nunca ficou magoado com alguém? A pessoa o ofendeu, humilhou, prejudicou sua carreira profissional, mentiu para impedir uma promoção, caluniou, usou de artimanhas para induzi-lo a erro, agrediu-o fisicamente, ofendeu seus pais, sua namorada ou filho, reduziu-lhe a auto-estima. São muitas as formas, sutis ou expressas, de ofender o ser humano e criar uma mágoa. Pode ocorrer involuntariamente, mas a regra geral é que o ofensor esteja bem consciente dos seus atos e dos seus efeitos.

Você está em seu local de trabalho. Seu superior hierárquico se aproxima, aponta-lhe o dedo e, em altos brados, na presença de seus colegas, critica o seu trabalho, humilha-o, chama-o de incompetente e termina por rasgar o trabalho que você levou dias de pesquisa e dedicação para concluir.

Enquanto você ouve essas humilhações, seu organismo vai passando por transformações, apresentando o que se chama de reações de fuga ou de defesa: a pele fica pálida, os batimentos cardíacos se aceleram, a pressão arterial aumenta, as freqüências respiratórias se intensificam, sobe o nível de glicose no sangue, o nível dos hormônios do estresse (adrenalina, noradrenalina, cortisona). A tensão pode ser tão grande que ficará gravada em seu inconsciente em forma de trauma e voltar a se manifestar pela vida afora. Estas reações deveriam ter a mesma duração da ofensa, porque o organismo, tão logo cessada a ameaça, recompõe-se e volta ao seu estado normal. Porém, muitas pessoas não conseguem se livrar daquela lembrança. Aquele que guarda a mágoa, vai provocando o corpo com novas reações toda vez em que se lembra daquele fato e o vivencia, porque o organismo não sabe distinguir um acontecimento atual ou passado. Quando a pessoa vivencia, em pensamentos, os fatos ruins, o corpo se prepara novamente para o contra-ataque ou para a fuga. É oressentimento.

Segundo o Dr. Francisco Cajazeiras, a mágoa, o ressentimento e a raiva, quando mantidos por tempo prolongado, repercutem negativamente sobre a saúde, demonstrando de forma inequívoca a participação das emoções na origem das doenças. Também a Dra. Robin Casarjian afirma categoricamente que "uma inclinação a guardar ressentimentos e uma marcada incapacidade para o perdão são a característica psicológica chave das pessoas com tendência ao câncer". Para evitar as conseqüências nefastas do ressentimento, é preciso aprender a processar as ofensas. Contabilizá-las e seguir adiante. Não relembrar, não reviver. Compreender o ofensor. Enfim, perdoar.

Perdoar é ter qualidade de vida. A medicina psicossomática é o ramo da medicina que se ocupa das enfermidades orgânicas que têm, em sua origem, uma grande participação dos processos emocionais: dificuldades em lidar com as emoções. Na década de 50 foram classificadas as pessoas, segundo a personalidade, em 2 tipos: a personalidade tipo A, em que há predisposição para doenças cardiovasculares, principalmente infarto do miocárdio. São pessoas ambiciosas, competitivas, imediatistas,workaholics, hostis, raivosas, tensas; e a personalidade tipo B, mais propensa a doenças reumáticas, que são pessoas lentas, tranqüilas, que não se comprometem com encargos que exigem imediatismo. Mas, recentemente, a Dra. Lydia Temohok, da Universidade da Califórnia, criou o termo personalidade tipo C, para designar pessoas com tendência ao câncer, nas quais se destacam os sentimentos reprimidos, dificuldades de auto-afirmação, raiva contida, ansiedade e profunda desesperança.

No Evangelho de Jesus encontramos muitas referências ao perdão, sempre com um sentido positivo, de crescimento e recuperação das relações e da saúde. "Reconcilia-te com o teu adversário enquanto estás com ele a caminho". Quantas vezes devo perdoar, até sete vezes? Não, até setenta vezes sete. É como se o mestre dissesse: você não tem liberdade para ficar doente. Ou, é pouco inteligente perpetuar um sofrimento que só lhe trará doenças e aborrecimentos. Não há limites para a busca da saúde. Se houvesse um limite de vezes para o perdão, seria como se dissesse: após esse limite, você não precisa mais perdoar e pode buscar a vingança, o ódio, o ressentimento e, conseqüentemente, uma doença grave. "Se a vossa justiça não for mais abundante que a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos céus".

"Ouvistes o que foi dito aos antigos. Olho por olho e dente por dente. Eu, porém, vos digo: não resistais ao mal que vos queiram fazer. Se alguém vos bater na face esquerda, oferecei-lhe também a outra". Há mais coragem em suportar um insulto do que em tomar vingança. Vingar-se é mostrar força, humilhar o adversário. Isto qualquer idiota faz, porque é o senso comum. O mérito está em mostrar a outra face, a face da conciliação, do reconhecimento de que mais vale suportar uma ofensa do que ofender. Perdoar infinitas vezes. É o domínio sobre o nosso orgulho ferido que nos torna menos vulneráveis aos ataques e injúrias.

Reconciliar-se não significa buscar o ofensor e arriscar-se a ser novamente ofendido. Não, porque seria uma irracionalidade. Nós não reagimos emocionalmente e fisicamente de forma igual diante de um amigo e diante de um inimigo. A presença de um inimigo provoca em nós todas aquelas reações já descritas, principalmente alterações em nossas glândulas. Portanto, perdoar não é apanhar de novo. É uma atitude interna de quem renuncia aos atos de vingança, de desforra, que desiste de mostrar ao adversário que é superior a ele.

É trabalhar o orgulho. Às vezes, porque queremos vingança, somos muito pequenos para analisar os fatos em sua real dimensão. Um pequeno acontecimento, que poderia ser relevado ou esquecido, torna-se motivo de brigas, ofensas ainda maiores e ataques de um contra outro por longos períodos de tempo. O perdão que concedemos pode não lavar o ofensor de sua falta, mas torna o ofendido um ser livre, interrompendo o círculo do cometimento de um crime para vingar outro crime.

Assim, é importante ter claras algumas definições: perdoar não é aprovar ou apoiar o comportamento que nos causa dor. Podemos perdoar e, ao mesmo tempo, agir para mudar a situação ou defender nossos direitos; perdoar não é fingir que está tudo bem quando sabemos que não está; não é manter uma atitude de superioridade ou se achar melhor que os outros; não significa que nós devamos mudar nosso comportamento. Podemos perdoar e, por auto-preservação, não voltar a falar com a pessoa que nos ofendeu.

Perdoar é amar a si mesmo e, ao mesmo tempo, vencer a si mesmo. É sobrepor ao desejo instintivo de vingança, um novo comportamento, um novo patamar de vivência. É a desconstrução consciente do instinto, com a colocação da paz no lugar da guerra e da vingança.

Perdoar é uma higiene interior. É como se a pessoa que perdoa tomasse um banho pelo lado de dentro, lavando em si mesma as manchas provocadas pelo ódio e pelo ressentimento. Se pudéssemos fotografar esses sentimentos, certamente veríamos o nosso organismo eivado de manchas, as quais, no longo prazo, provocam o envenenamento dos tecidos orgânicos e forma tumores de diversas espécies.

Podemos afirmar que o perdão é um ato de justiça e de humildade, de reconhecimento de que somos todos iguais. Hoje você me ofendeu e eu o perdôo. Sei que estamos no mesmo caminho e podemos nos encontrar logo ali adiante. Como reconheço que somos iguais, que sou impulsivo, às vezes ainda me falta auto-controle e uma visão correta das coisas, poderei falar e fazer coisas até piores do que esta em relação a você e, então, será a minha vez de, necessitado e comovido, pedir o seu perdão.

Esquecer as ofensas é a expressão maior do amor. Quando procuramos definições para o amor, geralmente dizemos que ele é um sentimento. Mas o amor não é um sentimento. Se fosse sentimento, seria impossível amar os nossos inimigos, porque os sentimentos que eles nos despertam não são expressão de amor e não podemos evitar as reações químicas que as suas presenças nos provocam. Mas podemos controlar o nosso comportamento e as nossas palavras. Amor expressa-se em nossocomportamento. É a forma como agimos diante dos sentimentos e das pessoas. Sabemos que perdoamos quando esquecemos as ofensas sem pensamentos ocultos e sem colocar condições. Quando não colocamos obstáculos à reconciliação, quando desejamos o bem ao ofensor e não o mal. Quando experimentamos alegria e não pesar pelo bem que ele receba; quando socorremos o ofensor, se uma oportunidade aparece. Abstemo-nos de, por palavras ou por atos, qualquer ato que possa prejudicá-lo e com o cuidado de, nem na intenção, humilhá-lo.

Mas por que é tão difícil, às vezes, libertar-se da raiva? É que existem ganhos em mantê-la: em primeiro lugar, ela nos dá a sensação de poder e também funciona como combustível para fazer as coisas. Existem pessoas que só conseguem agir ou falar determinadas coisas quando estão iradas; a raiva pode ser usada para controlar outras pessoas, pode servir para evitar a comunicação de coisas desagradáveis. Também funciona como uma maneira de impor nossas verdades, infunde culpa nos outros; disfarça outros sentimentos mais profundos, como inferioridade, incapacidade, preguiça, rigidez; e o ganho maior: mantém a pessoa no papel de vítima e a desobriga de assumir responsabilidades por seus atos e atitudes.

Um fato que muito me impressionou ocorreu com o meu irmão Fernando, há cerca de 25 anos. Ele morava na conhecida Baixada do Glicério, em São Paulo, numa quitinete, com mais 2 colegas. Um dia ele se desentendeu com o Derci, houve ameaças de vias de fato. O Derci, a partir de então, passou a dormir sempre com uma faca embaixo do travesseiro. Depois de alguns dias, mudou-se e, apesar de trabalharem na mesma empresa, não se falaram mais. Ficaram de mal.

Alguns meses depois, em um feriado, em Dores do Indaiá, o Fernando ia para a roça da família, a cavalo, quando viu o Derci, com uma turma de amigos, nadando no Córrego Nossa Senhora, logo abaixo da ponte por onde necessariamente passaria. Diante da inferioridade numérica e a certeza de que aquela turma estaria tomando algumas cervejas, pensou em dar meia volta, mas o orgulho falou mais alto e ele seguiu em frente.

Quando foi-se aproximando da ponte, o Derci lhe interceptou a passagem e o sangue se lhe gelou nas veias. Pensou que seria trucidado por aquela turba e se preparou para esporear o cavalo e, no limite, passar por cima do Derci.

Mas, para sua surpresa, o Derci lhe dirigiu a palavra de forma bem amistosa e lhe disse: - Fernando, nós brigamos, ficamos indiferentes, mas acho que precisamos esquecer aquilo. Nós vivemos em uma cidade grande, agressiva, longe de nossas famílias e precisamos é de apoio uns dos outros. Eu quero voltar a ser seu amigo.

O Fernando, emocionado, desceu do cavalo, abraçou-o e são amigos até hoje.

Este é o perdão mais gratificante, porque traz de volta o ofensor. Mas nem sempre isto é possível. Às vezes ele já partiu para a casa do Pai, às vezes não está aberto a receber o perdão. Então, nossa atitude deve ser a da higiene interior. Praticar o perdão maior, o do amor aos inimigos.

Reconciliemo-nos com nossos adversários e sejamos muito mais felizes.

Ex-seminarista (1967-75). Atualmente, mora em Brasília. É casado e tem duas filhas.

Autor: Vicente de Paulo Zica

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Data de Criação : 2007-10-27

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