PERCIVAL TIRAPELI


Iconografia na Matriz da Candelária, em Itu: um estudo das pinturas da capela-mor

Prof. Dr.Percival Tirapeli

Descobertas recentes de autorias de pinturas parietais paulistas

Abrem-se na Candelária de Itu novas perspectivas sobre a pesquisa da pintura colonial paulista, graças às recentes descobertas de desenhos imitando azulejos no tabuado das paredes laterais da capela mor. Ao serem retirados os cadeirais, a capela mor pode ser contemplada em sua totalidade artística, com pinturas imitando azulejos, que completam a iconografia das tradicionais pinturas sobre tela já estudadas por Mário de Andrade. O programa iconográfico completa-se com a pintura do forro de José Patrício da Silva Manso 1 .

A descoberta surpreendente revelou ainda a assinatura de Mathias Teixeira de Albuquerque (1788) em um dos espaços lisos e destinados para as pinturas de Jesuíno do Monte Carmelo - Mathias era então assistente ou aprendiz de José Patrício. Ainda em Itu, existem as descobertas realizadas nos últimos anos, com pinturas de alegorias dos quatro continentes na igreja do Bom Jesus e os surpreendentes fragmentos de autênticas obras de Jesuíno, encontrados por Luís Roberto de Francisco, na Candelária 2 Muitas pesquisas deste início de século geraram importantes avanços para nossa pintura colonial: a de Carlos Gutierrez Cerqueira, do Iphan-SP, com a pintura invisível (assim denominada por Mário de Andrade, ainda na década de 40 do século modernista), a partir de 2006 quando o Ateliê Julio Moraes restaurou a pintura do forro da Ordem Terceira do Carmo em São Paulo, de autoria de Jesuíno e, no forro da sacristia da mesma igreja, uma pintura de Patrício. Ainda em São Paulo, nas pinturas em tela da igreja da Ordem Terceira de São Francisco, no restauro realizado entre 2007 a 2013, oito telas foram restauradas. Ali, retiradas toscas pinceladas de inadequados restauros anteriores, mostraram-se refinadas pinturas do século XVIII --sendo algumas de possível escola portuguesa com influência italiana. Pesquisas continuam em andamento, realizadas por membros do Grupo de Pesquisa Barroco Memória Viva da Unesp. Nos forros das capelas mores das igrejas de Santo Antônio e São Francisco, pinturas decorativas, a primeira do século XVIII e a segunda do século seguinte, deram nova vida para aquelas capelas. E, na igreja da Boa Morte, o restauro de pintura pelo Ateliê Julio Moraes 3 .também da capela mor, completou aquela obra que por décadas ficara fechada. Na capela de São Miguel, com restauro da Formarte e Ateliê Julio Moraes, a reapresentação das pinturas jesuíticas sobre a taipa de 1622 comoveu os pesquisadores pela fragilidade e longevidade daquelas imagens em perspectiva, em dois nichos da parede frontal em taipa - que haviam ficado encobertos por séculos por singulares altares franciscanos. Na capela contigua, também foram restauradas pinturas do século XIX na camarinha do altar 4 . Em Bananal, na Fazenda Resgate, foram encontradas novas chinesices, pinturas do artista espanhol José Maria Villaronga y Panella. Na segunda década deste século as pesquisas em arquivos das ordens terceiras carmelitas, que se encontram concentrados em Belo Horizonte, confirmaram a autoria de pintores como Manoel do Sacramento e Antônio dos Santos, graças ao trabalho da pesquisadora Danielle Manoel dos Santos Pereira que já havia pesquisado na igreja dos terceiros de Mogi das Cruzes 5 . A iconografia carmelita foi pesquisada por Eduardo Murayama 6 ; Maria Lúcia Fioravante 7 esteve à frente de pesquisas nas igrejas franciscanas da capital, nas ordens terceira e primeira, e na pintura do coro do mosteiro da Luz - restaurada por Thereza Katinsky. Sempre sob o olhar do mestre Mário de Andrade, desde o artigo Capela do Sítio Santo Antônio, escrito para a primeira Revista do Sphan (1938), quando declara serem as pinturas daquela capela o que melhor restara do patrimônio paulista, patinadas pelo tempo 8 .

Candelária de Itu: plano iconográfico da capela mor

É à luz das pesquisas mencionadas que vimos apresentar esta pesquisa, cujo objetivo é esclarecer as relações imagéticas entre as pinturas dispostas em três níveis na capela mor: os desenhos, telas a óleo parietais e o trompe l'oeil no forro. Os primeiros recobrem as tábuas de madeira das paredes laterais na técnica de desenho aplicando tinta azul imitando azulejos, descobertos em 2012; seguem acima doze telas a óleo, colocadas em espaços das paredes laterais; por fim, a terceira pintura nas tábuas corridas do forro que recebem a visão da Apresentação do Menino Jesus no templo, pintura de José Patrício da Silva Manso. Só com estas descobertas é que se pode analisar todo o decoro que forma um conjunto mariano referente à devoção da Virgem da Candelária com belíssima escultura no retábulo mor. A análise iconográfica - estudo das imagens - esclarecerá a visão teológica - uso correto das imagens sagradas para o ensino religioso - como era costume da Igreja contra reformista para auxiliar os artistas a atuarem corretamente, baseados nos textos bíblicos e iconografia difundida por meio de gravuras. Assim a leitura inicia-se do lado direito de quem olha o retábulo mor, ou seja o lado da Epístola, com os desenhos em tinta azul, cenas do Antigo Testamento. Depois o olhar desloca-se para o lado do Evangelho, ao nível dos olhos para as pinturas menores em tela na parte superior, com cenas da vida da Virgem; relacionam-se estas com as pinturas maiores no espaço intermediário, com cenas da vida de Jesus, que nos levam a nos deslocarmos no espaço para lê-las. Todas se completam na visão do forro, que nos obriga a levantar os olhos e a girar levemente para apreciar A apresentação do Menino Jesus no templo ou Purificação de Maria. Os textos bíblicos são tanto a base da execução plástica das obras, como os referenciais entre elas, e seguiram o rigor da Bíblia Sagrada e das gravuras difundidas nos livros autorizados pela Igreja. As análises que aqui apresento baseiam-se, portanto, tanto nas referências bíblicas quanto nas interpretações teológicas do livro A infância de Jesus, de Joseph Ratzinger 9 . Por vezes a repetição das cenas faz-se necessária, pois em cada leitura devo me ater àquela análise específica: descrição pré-iconográfica abrangendo apenas as figuras, iconográfica, ao inserir os textos bíblicos, e, por fim, análises teológicas ou iconológicas que relacionam todas as figuras -- segundo os teólogos nortearam os artistas, que, claro, por vezes apresentam determinada visão de mundo a partir de suas experiências 10 . A leitura é explícita: a Virgem Maria é parte dos planos da redenção, uma candeia no caminho da salvação iniciado com cenas do Antigo Testamento - o povo israelita saindo do Egito guiado por aqueles que tiveram fé - e agora neste ciclo mariano, Maria acreditando na palavra de Gabriel, leva em seu ventre o Salvador e o apresenta ao mundo com os ensinamentos contidos no Novo Testamento. A visão da pintura do forro resume: o Menino enviado, cumprindo as leis judaicas na presença das tábuas da lei. Todos os desenhos azuis são a base: Abraão, José, o Egípcio, Isaac e Moisés, pois Deus falou através deles. Seguem-se as cenas de Maria com Anunciação, Visita à Isabel, Adoração dos pastores, completando-se assim a infância de Jesus (que em sua vida pública inicia-se com o Batismo por São João Batista), visita à casa de Simão e ainda outra o encontro com Nicodemos. Completa o ciclo glorioso da Ressurreição, duas cenas em paredes opostas, Cristo aparece para os discípulos em Emaús e nos arredores do sepulcro para Madalena. Estas pinturas sempre lá foram vistas e estudadas. Com a retirada dos cadeirais, a iconografia mostrou-se completa incluindo cenas do Antigo Testamento 11 . Para que esta nova leitura iconográfica seja correta - dita de decoro das imagens - deve-se ter em mente que os artistas tiveram um acompanhamento iconográfico/teologal dos freis franciscanos sem dúvida, e por que não com a confirmação dos carmelitas e, ainda anteriormente, apenas para a invocação, de jesuítas. Assim se procedia naqueles tempos com os pintores e entalhadores sacros que deveriam ser ensinados para exprimirem com decoro a vida dos santos e os mistérios da fé, tanto nas escultura como nas pinturas. Cumprindo assim os preceitos tridentinos que incumbiam bispos ou clérigos a traduzirem os mistérios da fé tanto em palavras como em imagens. Outras leituras revelarão estes personagens auxiliares e suas intenções mescladas às dos artistas - iconologia - que podem ser apontadas, mas certamente não são conclusivas: o porquê da escolha da Adoração pelos pastores e não pelos reis magos; e Cristo com a pá na mão, mesmo ressuscitado, trabalhando como jardineiro (Jo 20, 15), ao lado do sepulcro com Maria Madalena. A omissão dos episódios da Fuga para o Egito e o Massacre dos Inocentes pode se justificar pela presença da cena da libertação do povo hebreu do cativeiro para Canaã. Por fim, fica a questão de se a Virgem da Candelária, além de iluminar o caminho da fé, seria a medianeira através da Virgem do Rosário (no altar do arco triunfal) e São Boaventura (na pintura do forro acima). Estariam assim os mistérios dolorosos do rosário encerrados no conjunto do calvário no altar da nave? Para tal complexidade de cenas, dezesseis no lado do Evangelho e dezesseis no lado da Epístola (com cenas de paisagens), mais a pintura do forro e dois relevos do retábulo mor, o direcionamento era necessário, assim como o uso das gravuras referenciais. A leitura deve iniciarsepelo lado da primeira leitura da missa, ou seja, a Epístola, do lado direito de quem entra. A partir deste ponto da análise, as denominações não são mais aquelas descritivas mas abreviadas seguindo nomes usuais quando se referem a obras de arte. A primeira cena é a do Sacrifício de Isaac, o qual gera toda a descendência do povo de Israel. Seguem-se duas cenas de José, o Egípcio, a venda pelos irmãos (cena maior) e o encontro na cisterna (menor), e outra cena maior, a Travessia do Mar Vermelho, levando o povo, guiado por Moisés, a Arca da Aliança com as Tábuas das Leis. A elas se seguiam duas cenas de paisagens, sendo que uma delas obstruída e a última, com grande paisagem e um homem com uma espada em punho (talvez a visão da terra prometida?). Estas primeiras cenas remetem à ancestralidade, Abraão e Sara que tiveram o filho na velhice, anunciado por um anjo (como ocorrera com Zacarias e Isabel, também estéril); José, o filho predileto de Jacó que foi vendido e depois torna-se triunfante, e Moisés, que tira o povo de Israel do cativeiro do Egito e, depois de terem caminhado quarenta anos pelo deserto (talvez) tenham visão da terra prometida, na última cena. As cenas acima, das telas menores, subindo os olhos para a primeira é Adoração dos pastores, Apresentação de Maria no templo e Batismo de Jesus por João Evangelista, e abaixo, as três maiores são referentes à vida pública de Jesus em Visita a Nicodemos, Banquete na casa de Simão e, depois da ressurreição, com Discípulos em Emaús. No lado oposto, no Evangelho, na segunda leitura, o livro do Êxodo com cenas da Sarça ardente, Deus falando com Moisés em forma de sarça ardente, menor seguida da maior, o Jorro da água proveniente de uma pedra, ainda o profeta Moisés implorando para entrar na terra prometida, menor intercalada na maior, a Chuva de maná para alimentar o povo no deserto, a Adoração da serpente fundida por Moisés, menor, e a última, os Frutos da terra de Canaã, maior junto ao altar no presbitério onde se substancia o vinho em sangue de Cristo. Nas telas menores entre as tribunas, as cenas marianas da Anunciação da Virgem, Visita a Isabel e Nascimento de Maria, dos mistérios gozosos do terço. Da vida do apostolado de Jesus, as telas maiores, Lava pés, Sagrada Ceia e depois da ressurreição, Jesus aparece a Madalena no jardim. Encerra-se toda evocação mariana com a grande pintura do forro com a Apresentação do Menino Jesus no templo, ou A Virgem das candeias. E no altar mor, dois pequenos relevos, um na porta do sacrário com o Cordeiro triunfante e o cálice e hóstia sobre a tarja do retábulo 12 . A cena principal no forro, entregue ao melhor artista, Silva Manso, mostra o momento da Apresentação do Menino Jesus no templo e a Purificação de Maria. Sustentam esta visão os doutores da Igreja, Jerônimo que traduziu a Bíblia para o latim (Vulgata), Ambrósio que reestruturou a Igreja Romana, Agostinho, teólogo que aprofundou sobre o mistério da Santíssima Trindade e Boaventura, teólogo franciscano, estes dois últimos pertencentes às ordens religiosas que divulgariam a devoção da Candelária. Antes de iniciar uma análise teológica, resumo as interligações com as cenas: as do Antigo Testamento como formação do povo de Israel (Abraão) e a fé de Moisés ao conduzir o povo para a terra prometida com as tábuas da lei, que está em evidência no altar do templo (cena da Purificação), as diversas formas de Deus manifestar-se - sarça ardente, chuva de maná, nuvens carregadas na maioria das paisagens, os cachos de uva, os frutos da terra prometida e a serpente na haste - ambas antecipações dos sacrifícios de Jesus. No nível acima, junto às galerias, as cenas são da vida de Maria e infância de Jesus, até chegar ao batismo. No meio, as telas maiores, a vida de Cristo antes e depois da ressurreição, fechando os ciclos da redenção do homem por meio de Maria. Os temas nem sempre estão em ordem cronológica, mas fazem sentido praticamente triangulando os temas quando não remetendo por diversas vezes à pintura central do forro: Jesus sendo revelado no templo junto às tábuas da lei, prevendo ser imolado. Maria, que teve sua revelação pelo anjo Gabriel, tornou-se naquele instante da anunciação a nova arca da aliança, encerrando o Verbo em seu ventre. Maria correu pressurosamente até sua prima Isabel e João exultou em seu seio. Na cena do batismo, João Batista como profeta torna Cristo pronto para seu apostolado sob as luzes do Espírito Santo, o mesmo que fecundara a Imaculada Maria. Nas cenas intermediárias, Cristo cumpre o que os profetas antigos disseram: do reino de Davi sairia o Salvador. Quatro cenas de vida pública com discípulos, Ceia, Lava pés, Banquete na casa de Simão e encontro com Nicodemos sintetizam o apostolado e unem cenas dos cachos de uva com a Ceia (transubstanciação), do pão com o maná, as águas de purificação (proveniente da rocha, do Mar Vermelho) com aquelas do Batismo e do Lava pés; da reunião de todo povo de Israel com a nova lei do novo testamento, com os doze apóstolos, e da humildade, de um Deus adorado por pastores e posto em uma manjedoura. Tão humilde quanto lavar os pés dos apóstolos e tão singelo quanto José levar duas rolinhas ao invés de um cordeiro para ser imolado no altar do templo -- o próprio Menino era o cordeiro a ser imolado. Por fim, o Cristo revelado após a ressurreição com Maria Madalena e discípulos em Emaús, já não mais pertencente a este mundo, ou seja o cumprimento da missão anunciada por anjos (Abraão, Zacarias, Maria, e em sonho para José e os pastores) consentida por Maria na anunciação. Ainda o papel dos casais de anciãos - Abraão e Sara, Zacarias e Isabel - que, como Maria, acreditaram na palavra do anjo e o de José que, visitado em sonho, compreendeu o mistério da imaculada concepção. Novamente, a cena da Apresentação do Menino Jesus no templo é o resumo das revelações do Antigo Testamento (tábuas da lei, arca da aliança, altar no templo, completadas pelos desenhos azuis no nível de base (fé de Abraão, e caminhada com Moisés para a terra prometida), e a concretização no Novo Testamento com o consentimento de Maria a se tornar ela mesma a nova arca da aliança, trazendo ao mundo o Cristo, a candeia a revelar o caminho da salvação. Também se pode dizer de uma pintura catequética, sem ornamentos para distrair a atenção do fiel, uma mensagem pura com economia de personagens, de cor e rigor excessivo nas vestimentas. Na Anunciação, apenas o tabuado para a Virgem ajoelhar-se, o lírio na mão de Gabriel, o livro, a pomba e anjos. Com Madalena, não há frascos, apenas uma candeia entre Jesus e Nicodemos. Enfim, há menos elementos pintados do que sugere a escrita. E certamente os referenciais seriam ricos em detalhes, que nessa obra em Itu foram suprimidos, ou por desejarem uma mensagem direta ou devido a escassos recursos matéricos - como até uma pobreza de pigmentos - e mesmo, por vezes uma perceptível falta de habilidade e domínio da técnica pictórica. 

A luz da Virgem da Candelária

A iconografia da capela mor de Nossa Senhora da Candelária em Itu é plena de simbologia (descrição resumida acima), com a cena da visão nas pinturas do forro, telas a óleo e desenhos imitando azulejos que se completam para consumar na invocação da Virgem das Candeias. De origem paleocristã, comemora-se a Purificação de Maria depois dos quarenta dias do nascimento de Jesus, quando O apresenta no templo, seguindo o rito judaico. Simbolicamente, as candeias iluminam a caminhada da Virgem até o templo, e a procissão é uma manifestação ancestral na busca e louvação de um fato misterioso. Na tradição pagã romana, no final do inverno europeu havia uma procissão com velas para iluminar o caminho da deusa Ceres a retornar à luz, pois vivia na escuridão dos ínferos. Esta tradição pagã tornou-se cristã e foi confirmada pelo papa Gelásio (492 - 496) com uma procissão noturna iluminada pelas candeias, entoando hinos em louvor à Virgem Santíssima. Justiniano I, convertido ao cristianismo em 542, levou a tradição ao Império Romano do Oriente. Na atualidade refere-se à liturgia da Apresentação do Menino no templo, conservando porém a bênção das velas antes da missa, seguindo-se a procissão.
Tradição milenar em Portugal e na ilha de Tenerife, Canárias, Espanha, da qual vem a vertente da Candelária, pela aparição de imagem milagrosa aos primitivos habitantes daquela ilha (os guanches) em uma gruta iluminada por candeias suspensas na escuridão13. Naquela gruta iniciou a sua devoção, que incluía uma invocação a são Brás - daí a benção da garganta dos fiéis com duas velas dispostas em V. De início a imagem foi disputada entre dominicanos, agostinianos e franciscanos, mas ficou sob a proteção dos dois últimos. A tradição passou para a América Espanhola e o Brasil também pelos jesuítas, visto que o padre Anchieta veio das Canárias. Há inúmeras igrejas que a evocam sob o título de Candelária em cidades como Salvador, Rio de Janeiro e Itu. A iconografia da Virgem é reconhecida pela vela que leva em sua mão esquerda, enquanto na direita segura o pequeno Menino Jesus que está a ser apresentado ao templo, tendo um pequeno pássaro nas mãos, oferta de Maria e José para o sacrifício, visto que por serem muito pobres não tinham dinheiro para ofertar um cordeiro.
A iconografia da pintura do forro
A homenagem mariana situa-se na pintura do forro da capela mor com o motivo da Apresentação do Menino Jesus no templo e a Purificação da Virgem14. Quatro doutores da Igreja - Jerônimo, Agostinho, Boaventura e Ambrósio - sustentam a visão central com os personagens - Maria apresentando-se para ser purificada depois do parto; o Menino Jesus para ser circuncidado como um hebreu; José, o esposo puro escolhido por um anjo para acompanhar o mistério da concepção e ser o pai de Jesus; o sumo sacerdote Simeão, que toma o Menino em seus braços, diante do altar e reconhece seu messianismo (Lc 2, 25-35)15 e a profetisa Ana, idosa, com 84 anos de idade, que vivia no templo (Lc 2, 36-40) 16. Completa a iconografia o altar hebraico (mitsbéaj) sobre o qual estão as tábuas das Leis. Genuflexo, um anjo ilumina com uma vela a cena na qual o resplendor da cabeça do Menino Jesus, entre Simeão e as Tábuas da Lei, revela a presença divina. Um anjo voante apresenta-se com uma coroa de flores e lírios, símbolo de pureza, como a de seu pai, José; outros anjos congratulam-se entre nuvens. Uma figura feminina ainda se encontra na cena, talvez que levasse as oferendas, os pássaros (Lc 2, 22 - 24)17 . De acordo com os ditames tridentinos, não se poderia acrescentar ou mesmo omitir figuras presentes no relato escrito. Mais flores formam guirlandas entre as colunas rococós fantasiosas, enquanto anjos se apressam em apresentar símbolos de dignidades eclesiásticas correspondentes aos doutores da Igreja. No canto da direita, São Jerônimo (c. 345-420) apresenta-se despido de suas vestes religiosas (era secretário do papa Dâmaso) e a martirizar-se batendo uma pedra no peito. O leão o acompanha na cova, a nova moradia do religioso como eremita que traduzira a Bíblia do grego Septante para o latim, conhecida como Vulgata, tornando-a oficial para a Igreja. Ambrósio (que morreu em 397), bispo de Milão que estruturou a Igreja ainda durante o império romano, aqui junto aos livros (símbolo dos doutores) e a indicar que fora ele autor o Édito da Tolerância no século V. Santo Agostinho (354 - 430), no lado oposto ao de Jerônimo, com suas vestes eclesiásticas, como bispo de Hipona, é proclamado o teólogo doutor da Igreja. Suas indecisões antes de acatar os chamados de sua mãe e de Jerônimo para que se convertesse ao cristianismo, o fazem ser representado segurando um coração em chamas antes atormentado e agora com sede de verdade. Viveu no norte da África onde morreu em 430. E Boaventura (1221 - 1274), emérito professor de teologia dos irmãos menores franciscanos, no mesmo período de Tomás de Aquino no período medieval. Foi cardeal mesmo sem ser sagrado bispo, por recusa de humildade. Auxiliou na convocação do Concílio de Lyon convocado pelo papa Gregório X em 127418 . Recebeu o rosário das mãos da Virgem Maria, e o altar para sua invocação, na igreja da Candelária, posiciona-se junto ao arco triunfal.
Fotomontagens Victor Hugo Mori.
Iconografia das pinturas em tela do lado do Evangelho
A segunda mais evidente iconografia está presente nas telas das paredes laterais, com cenas da vida de Maria e de Jesus. Do lado do Evangelho, esquerda de quem olha, a primeira tela na parte superior tem a seguinte sequência: Nascimento de Maria, Visita a Isabel e A Anunciação. Abaixo, as maiores a partir do arco triunfal, Aparição de Cristo a Maria Madalena, Santa Ceia e Lava pés. Tanto os desenhos como as pinturas maiores ou menores relacionam-se entre si. Em A Anunciação (Lc. 2, 26 -37)19 , Maria resignada diante do mistério da concepção e Cristo, Deus feito homem, baixando-se em ato extremamente humano. Em Visita a Isabel (Lc. 2, 39 - 41) 20, ambas referemse ao encontro - Cristo e João Batista, ainda nos ventres das santas mulheres, João aclamado o último profeta e o primeiro apóstolo; na Santa Ceia, o último encontro com os novos apóstolos. Nascimento de Maria e Aparição de Cristo a Maria Madalena se complementam pela vinda - nascimento de Maria - da mulher pura que trará no ventre o redentor do mundo; Madalena, aquela que o seguira, passara perfumes em seus pés, esteve ao pé da cruz e também fora ao túmulo no terceiro dia, recebe sua visita como ressuscitado. Na leitura popular, e assim são estas pinturas catequéticas, referem-se aos mistérios gozosos do terço, de tradição popular juntamente com a oração da Ave Maria evocada na Anunciação. De evocação mais culta é o Magnificat, anima mea Dominum, oração que Maria fez ao encontrar-se com sua prima Isabel. Além de exultar ao Senhor, orou: Tomou cuidado de Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia; conforme prometera a Abraão e à sua prosperidade para sempre (Lc 1, 54 - 56). Assim, a cena da visita evoca o sacrifício de Isaac, pois seu Filho, em seu ventre estava predestinado ao sacrifício da salvação. Para os hebreus, Abraão ao levar seu filho a ser sacrificado é a prova máxima da crença na palavra de Deus. Para os cristãos, prefigura o sacrifício de Cristo na cruz ou ainda o real sacrifício da eucaristia. Dessa forma a primeira imagem vista ao lado do arco do triunfo conjuga-se com as alegorias do cordeiro no tabernáculo e na tarja sobre o retábulo-mor, com a hóstia dentro de um cálice.
Iconografia dos desenhos imitando azulejos do lado do Evangelho
Quando da ornamentação da capela mor - dataria de 1788, segundo assinatura de Mathias Teixeira da Silva21 em recentes descobertas - a parte inferior da parede, que era toda revestida de madeira, recebeu pinturas com tonalidades azuladas a imitar os painéis de azulejos, como ocorria nas igrejas brasileiras do litoral com material proveniente de Portugal. As igrejas em São Paulo e Minas Gerais foram privadas do uso dos azulejos devido à impossibilidade de transporte. Tratase da primeira descoberta em São Paulo dessa inovação criativa - desenhos a imitar azulejos -, pois acreditava-se que apenas em terras mineiras muitas capelas e igrejas tivessem sido com eles agraciadas, isso antes dos desenhos de mestre Ataíde, já do século XIX. As cenas tiradas de gravuras de livros - impressos com gravuras em metal -, são de publicações do Antigo Testamento, mais exatamente do Êxodo. Esse livro narra a fuga do povo hebreu das terras do Egito onde eram escravos, atravessando o mar Vermelho, guiados por Moisés rumo à terra prometida. Estes painéis pictóricos, separados por espessas linhas flamejantes, à guisa de moldura, relatam os fatos de maneira cronológica, a saber: a presença de Deus por meio do fogo da sarça ardente; Moisés batendo com o cajado na rocha da qual jorra água para o povo sedento; Moisés prostrado a implorar entrar na terra prometida; Deus mostrando-se presente por meio da chuva do maná no deserto; a serpente de bronze presa a uma haste, e a última, já no presbitério, junto ao altar, Josué e Caleb a transportarem cachos de uva das terras de Canaã. Todas as cenas deveriam seguir a narrativa bíblica, contendo a verdade a mostrar a intervenção de Deus. A maior relação entre os temas é a união dos fatos do Antigo e Novo Testamento serem a passagem, ou melhor o caminho escolhido para a Redenção. O episódio de tirar o povo do cativeiro do Egito estava presente também nas pinturas que imitam azulejos no lado da Epístola, com Abraão e Moisés. A indicação do caminho para a terra prometida e seus percalços era resolvida com as manifestações de Deus - epifanias - que são: a sarça ardente (pirofania, Êx 3,1- 6)22, a água da rocha (Êx 17, 5 - 7)23, com um paisagem ao fundo plena de nuvens (cratofonia, Êx 19, 16-17) 24, o maná (cristofania, sinais messiânicos, (Êx 16, 11 - 14) 25, a serpente (aqui símbolo da cura) e os cachos de uva (cristofania, Êx 16). Cada qual relaciona-se da seguinte maneira: aos pedidos negados, a Moisés para entrar na terra prometida e à Maria Madalena para não tocá-Lo - noli me tangere - o que pode ser interpretado como uma impossibilidade, visto que Ele não teria retornado ao reino dos céus. Os pedidos de Moisés eram atendidos por Deus, exceto este que seria a terra prometida, ou seja, o reino de Deus na terra. A chuva de maná para saciar a fome do povo no deserto relaciona-se com a Santa Ceia, o Cristo com o novo alimento - o pão que, consagrado, se transubstanciará em corpo divino assim como os cachos de uva no vinho para a ceia que será o sangue no banquete divino. A água que no deserto sacia a sede do povo - símbolo de vida - e causa espanto ao jorrar da rocha dura, no Lava Pés também espanta o apóstolo Pedro que se recusa a crer no ato de humildade. Pede então que lave todo seu corpo, daí a grande porção como uma fonte e não apenas o murmúrio da água entre os dedos divinos. Por fim, a serpente que Moisés funde em bronze para a cura e é levada ao templo (Nm 21, 5- 9) 26. Para São João Evangelista (Jo 3,14 -15) 27 a serpente na haste é a prefiguração de Cristo na cruz. Estes símbolos pictóricos completam-se com os símbolos da visão da pintura do forro. A sarça ardente no Monte Sinai, quando Deus fala com Moisés, relaciona-se com as tábuas da Lei dos Mandamentos que estão sobre o altar - o local onde Deus se encontra com os homens. Os cachos de uva carregados por dois homens se transformarão em vinho que estarão no cálice - na tarja acima do retábulo-mor - mostrando a eucaristia. O fogo da sarça conjuga-se ao brilho do sol que fulgura por detrás da pequena escultura do cordeiro (tereomorfismo, representação animalesca) de Deus (apocalíptico) na porta da sacrário, como o cordeiro sacrificado (como a sarça consumida pelo fogo sobre uma rocha) ao ser apresentado no templo pela sua mãe e levado ao altar como sacrificado, junto as tábuas dos Mandamentos (na visão do forro). Em todas as cenas a paisagem tem fundos pictóricos, onde está a presença de Deus, seja falando entre raios ou trovões, seja saindo das espessas e pesadas nuvens que se confundem com rolos de fumo (sarça e haste com serpente) ou em tempestades como a cena da chuva do maná.
Fotomontagens de Victor Hugo Mori.
Iconografia das telas do lado da Epístola
As cenas das pinturas inferiores do lado da Epístola também se referem à permanência ou cativeiro e êxodo do povo hebreu do Egito, contendo duas cenas destacadas, a traição dos irmãos de José do Egito, que é vendido, e a passagem através do Mar Vermelho (Êx 14, 15 - 16 16)28. A primeira cena junto à coluna do arco triunfal é do Sacrifício de Isaac (Gê 22, 1 - 3; 11 - 13)29 quando Abraão prova a Deus a sua fé ao não duvidar em sacrificar seu filho; na cena intermediária entre as maiores, José é jogado e retirado da cisterna seca. A terceira cena menor foi prejudicada pela retirada de tábuas e a última é a chegada do povo na terra prometida, sendo sinalizada por um anjo e a cidade ao fundo30. As pinturas intermediárias, dentro de pequenas molduras entre as janelas da galeria, mostram paisagens com árvores, montanhas e torres. Aquela acima de José, o egípcio, filho de Lot que se torna ministro do faraó, pode sinalizar a crença da profecia da abundância (árvore) e uma construção similar a um silo (para se guardar o trigo na época da carestia), que seria símbolo de prudência e triunfo do homem justo e sábio, pois Deus está com ele (Gn 37, 2- 36; 39-48) 31 . Esta cena é complexa pois são representados todos os irmãos de José, além de animais que indiquem que lá está representado o Egito, colocando-se por exemplo os camelos à guisa de metáfora de uma parte pelo todo. As telas maiores contêm cenas da vida de Cristo - a primeira junto ao retábulo mor, Visita à casa de Nicodemos em seguida Banquete na casa de Simão e a última Discípulos em Emaús32 . As pinturas menores com as cenas do Nascimento e adoração dos pastores (Lc, 2, 8 -16)33 , A Apresentação de Maria no templo 34 e Batismo de Cristo (Mt 3, 13 - 17) 35, fazem um percurso contrário no tempo, o mesmo ocorrendo com as pinturas maiores de ambos os lados, porém as duas primeiras no sentido rumo ao altar, ambas cenas pós-ressurreição - Madalena e discípulos. A menor do centro, Apresentação no templo, é redundante - configurando retórica barroca - à visão da Purificação no forro.
Interligação entre as cenas das telas grandes do lado da Epístola - messianismo.
O Nascimento é na realidade a continuação cronológica das cenas menores do lado do Evangelho, se lidas a partir da entrada na capela - Nascimento de Maria36 , Visita a Isabel, A Anunciação e em seguida o Nascimento de Cristo ou Adoração dos pastores, Apresentação de Maria no templo ou Purificação de Maria e por fim o Batismo de Jesus, iniciando assim a sua vida como profeta. Começa portanto uma nova caminhada rumo ao sacrifício e salvação, similar as sacrifícios precedentes, pelo deserto até a morada de Deus, a Jerusalém Celeste. Outras duas grandes telas celebram encontros humanos e singulares de Cristo com Nicodemos e no banquete na casa de Simão, quando Maria Madalena37 perfuma os pés do Mestre. Cenas domésticas, em interiores particulares, como sugerem a do anjo Gabriel entrando na casa de Maria, ou a Virgem na casa de Isabel e ainda o nascimento de Maria. As messiânicas: a Ceia assim como o ato do Lava pés denotam tanto no ato do mistério da transubstanciação como no da humildade do Lava pés, atitudes de profundo intimismo. A visita a Nicodemos, seu discípulo secreto que ajuda no sepultamento de Cristo, é um elo entre o Antigo e Novo Testamento (a pregação de Cristo) pois o defendeu diante do sinédrio (senado que condenará Cristo). A rocha em que Cristo está sentado evoca os atos que ocorrerão no monte Calvário e a sepultura emprestada de José de Arimateia. A grande tela Banquete na casa de Simão (Lc 7, 36 - 38), o fariseu (a julgar pelo manto similar de Nicodemos, de sacerdote) que foi anfitrião de Jesus é um tanto enigmática. A triangulação das figuras - Simão o representante das tradições como sacerdote, Cristo do lado oposto da mesa como o Messias, figura principal do novo tempo -, que se entreolham tendo no espaço da mesa os símbolos da eucaristia, enquanto Maria Madalena unge os pés de Cristo com perfumes e os enxuga com seus cabelos como fará logo mais ao pé da cruz, e ao terceiro dia irá ao sepulcro. A discípula fiel, da qual Cristo teria tirado sete demônios, seguiu-O pela Galileia (Lc 8, 2), e por isso está no banquete, será visitada pelo mestre ressuscitado - Noli me tangere - como ocorre na cena da tela grande no lado oposto junto à entrada da capela mor38. Aliás as duas telas com Cristo ressuscitado iniciam esta procissão até o altar onde o Cristo mostra-se como Cordeiro triunfante no porta do sacrário. Sem não antes passar pela cena da Purificação (no forro) onde o Menino nos braços de Simeão é mostrado como o milagre da vinda do Messias, e, ao mesmo tempo, pela proximidade do altar, como aquele que será imolado. Na cena da tela menor da Apresentação do Menino Jesus no Templo e Purificação da Virgem, o jorro de luz que vem dos céus, passando pela cortina do templo (rasgar-se-á quando de sua morte) é interceptado pela mão do sacerdote Simeão em um gesto que ao mesmo tempo purifica Maria e alarga-se na revelação da presença do Messias. Esta epifania se faz redundante com a presença do anjo (angelofania, também presente no espaço do forro com apenas uma vela na mão) e a luz intensa (revelação pela pirofania) a iluminar a revelação de Jesus que inicia sua vida humana galgando três degraus do altar do templo. O início desta caminhada com Maria sob a intensa luz evoca a vela ou candeia - candelária - a iluminar o caminho da redenção como vocação da Virgem, convite e consentimento (anunciação) a participar da missão de acordo com o plano de Deus. Da mesma forma, nas cenas das pinturas abaixo, Abraão aceita sacrificar seu filho e Moisés a libertar e guiar seu povo.
Interligação entre todas as cenas
Se nas cenas acima tem-se a intimidade de Cristo e Maria, as pinturas que imitam azulejos são plenas de multidões, quando Deus mostra-se ao seu povo em milagres espetaculares (que requerem espaços maiores) - passagem através do mar Vermelho com a arca da aliança, a chuva de maná, água jorrando da pedra e a negociação dos irmãos de José. As cenas íntimas do Antigo Testamento são as menores: a visão da sarça ardente, a súplica de Moisés para entrar na terra prometida e a decisão de fazer a serpente (lado do Evangelho), sacrifício de Isaac e retirada de José do poço (lado da Epístola). Os três personagens tiveram uma vocação designada por Deus para salvar o povo escolhido: Abraão (Gn 12, 1-2) 39 que por sua obediência tornou-se pai do povo hebreu; José, o sonhador egípcio que confiou em Deus mesmo sendo sacrificado por tempos dentro da cisterna e Moisés, que ouviu Deus na sarça ardente e subiu o monte Sinai, de lá trazendo as tábuas da Lei. Todos se entregaram ao sacrifício para agradar a Deus, assim como a seu Filho. As cenas da aparição de Cristo já ressuscitado estão nas extremidades junto ao arco triunfal, por onde o sacerdote inicia e finaliza o mistério da celebração contido na missa. Pode-se relacionar a aparição aos discípulos em Emaús, que caminhavam e foram surpreendidos pelo milagre da presença do Cristo Ressuscitado ou seja, já imolado, podendo assim ser comparado ao cordeiro que Deus substitui para a imolação no lugar do filho de Abraão, Isaac.
Simbolismo das cenas das paisagens
As cenas das paisagens são de mais difíceis interpretações, ou podem ainda ser mais generalizadas, pois não há confirmações com versículos bíblicos. Nas cenas de paisagens o mais recorrente é a colocação de rochas e montes em primeiro plano e torres ao fundo, auxiliando na profundidade da perspectiva. Difere daquelas menores onde a incidência recai sobre a arquitetura incluindo arcos romanos. Sob a cena do Nascimento, o monte da cena menor evidencia a preferência pelos "lugares altos"- mesmo se sabendo que as colinas e montes são recorrentes em toda a Palestina - sempre estão a apontar para o local das aparições, pregações e sacrifícios. Aqui as montanhas como "altares" surgem no sacrifício de Isaac, as tábuas da Lei no Sinai, o jorro da água da rocha, a haste com serpente sobre uma rocha (Calvário), o altar do templo e as colinas da terra prometida.
Evidências da vocação de Maria
Por fim as seis cenas da vida de Maria - O nascimento de Maria, A anunciação e A visita a Isabel no lado do Evangelho - prenunciam o caminho escolhido por Deus para a redenção da humanidade neste percurso do Verbo fazer-se carne no ventre de Maria. E seu Filho permaneceria entre nós pela pão (maná) e vinho (cachos de uva de Canaã) prenunciado por Moisés na serpente (haste, cruz), segundo o evangelista João. No lado da Epístola, o Nascimento de Cristo e adoração dos pastores, Apresentação de Maria no templo e Batismo de Cristo, completam a missão de redenção da Virgem que sentiu no ventre de Isabel João exultar quando de sua visita e agora o batiza (sob intensa luz, com a presença do Espírito Santo) para iniciar a caminhada pela conversão dos homens, neles incutindo seus dons.
Triunfo da missão messiânica: iconografia dos relevos - Cordeiro apocalíptico e cálice com hóstia
O relevo da porta do sacrário na predela do retábulo-mor mostra o cordeiro apocalíptico triunfante sobre o livro com sete selos. A tradição é sempre lembrada nas portas de sacrário com a colocação dos anjos de gola, remanescente daqueles que guardavam a antiga arca da aliança do Antigo Testamento. O cordeiro como Cristo, que fora imolado, tal qual no sacrifício de Abraão e na profecia de Isaías (Era como um cordeiro conduzido ao matadouro, Is 53,7), é aqui representado como cordeiro triunfante, ressuscitado, com uma cruz segura e pela bela torção do corpo e cabeça em contraponto próprio da arte barroca. O livro do Apocalipse, com a passagem dos sete selos reveladores dos nomes das bestas (Ap, 8, 1 - 2) 40 serve de base para o cordeiro que tem em seu peito um coração ardente transpassado pela coroa de espinhos, lembrando o fogo da purificação mas ao mesmo tempo a consumação e o juízo final, segundo os apocalípticos. No outro lado, uma bandeira com cruz latina completa a simbologia na parte frontal do cordeiro. Na parte posterior, emergindo o relevo da porta levemente curva, o sol que se oculta na morte de Jesus (Mt, 27, 45) coincidindo com a sua ressureição (Mc, 16, 2)41 . Um crucifixo amplia a simbologia do sacrifício de Cristo, aos pés da urna xxx onde se encontra a escultura da Virgem da Candelária. Acima, os degraus do trono dentro da camarinha, com local para a colocação do ostensório para a adoração da hóstia sagrada, dentro do cálice que se encontra em forma de relevo na tarja que arremata o conjunto. Esta parte do altar sempre recebe um cuidado maior pois lá encerra-se o mistério da transubstanciação, especialmente caro naquele momento contrarreformista. Os entalhadores eram orientados de maneira minuciosa de tal sorte a constituir uma peça clara em sua iconografia, e mestra em seu lavor artístico. O tabernáculo deve ter decoro, dignidade, preciosidade e veneração, segundo os escritos de São Carlos Borromeo42 .
Mathias Teixeira da Silva: desenhos de devaneio
Fotografia Victor Hugo Mori.
Mário de Andrade não poderia prever que um dia os cadeirais - talvez provenientes do antigo convento franciscano de Itu- seriam retirados das paredes laterais da capela-mor da matriz e assim apareceriam os desenhos imitando azulejos, tal como se vê desde 2012. Menos ainda poderia pensar que haveria por detrás daquelas telas com cenas das vidas da Virgem e de Jesus, a assinatura desleixada de Mathias Teixeira da Silva43. E mais adiante, para alegria dos pesquisadores, a data de 1788. Ainda mais, com o decorrer dos restauros das telas a óleo, tão estudadas e sob certas desconfianças do próprio modernista, estas indicariam uma visualidade que nem sempre corresponde à verdadeira obra do então jovem aprendiz Jesuíno. O caso é o devaneio de Mathias, e se Mário visse seus desenhos rápidos engrossaria o coro de malandragens como ocorrera com a construção do órgão musical em Santos pelo então mulato santista. Lá se requeria maior seriedade, mas aqui se tem um sabor diferente, pois sua invenção seria mesmo encoberta. E quem a encontraria? Que bom que o tal Mathias, em hora de folga, longe dos olhos dos teólogos, filósofos e principalmente do mestre Manso, pincelou aqueles desenhos que passam a ser um documento mais antigo que o olhar exato de Thomas Ender (1817), do neoclássico de Jean-Baptiste Debret (1817 - 1831), o romântico de Moritz Rugendas (1845), mas que tem certa proximidade com o olhar poliédrico do ituano Miguelzinho Dutra. Mesmo sendo ele o autor da reprodução das gravuras em metal que lhe foram dadas como referencial para as cenas do Antigo Testamento, o artista inovou em seu metiê, esboçando o cotidiano, cenas que estavam ali, do outro lado das paredes de taipa, passando na rua, partindo talvez para uma viagem ao desconhecido pelo sertão do Mato Grosso. E mais, ainda longe de camelos como na cena da negociação de José, o Egípcio. Com aquelas palmeiras que jamais havia visto e pessoas vestidas com roupas estranhas e chapéus em forma de chifre, mais estranhos ainda. E tem mais, o artista foi intruso, adentrando o espaço do outro artista que preparava as telas a óleo. Que erro teria Mathias cometido? Desejaria passar de um estado de aprendizado ou status de desenhista de uma só cor para outro como a óleo? Ter outro status como artesão? Livrou-se por instantes daquelas gravuras negras e divagou nas tonalidades azuis? Ou ainda foi um treino para as cenas campestres (que são muitas, dezesseis ao todo), mais próximas àquela realidade de seus dias? Seja o que for. Agradecemos a intromissão de Mathias, foi rápido, abreviou o Silva. Esperto, fez de memória o homem que parte para o sertão, que caça tatu. Caprichou nos apetrechos da mula, quem sabe acostumado com seus hábitos. Mirou certo na arma do homem com chapelão, dono e senhor de algum engenho de açúcar. Nunca saberemos quem são. O que se sabe é que ao distanciar-se das gravuras sacras nos legou um documento emocionante, livre de perspectiva, observação certeira na configuração, com pinceladas rápidas. Uma lebre. Quiçá todas feitas em um só dia antes ou enquanto as novas telas chegassem e o apagassem da história por mais de duzentos anos? A arte é aquilo que se projeta para ser o futuro. Aconteceu. E o Silva, mesmo abreviado, entrou para a história da arte de Itu, ao lado de tantos outros nobres como o Almeida.

Iphan, Condephaat, Museu a Céu Aberto, Prefeitura de Itu e da Paróquia da Candelária, conforme publicação O restauro - algumas perguntas e respostas, Julio Moraes, no Cadernos do Patrimônio de Itu, ano 1, nº 1, 2015, pp. 8 - 13. 2 Luís Roberto de Francisco. Um novo tesouro artístico na matriz de Itu. Cadernos do Patrimônio de Itu, ano 1, nº 3 MAGALDI, Cassia R. C.. Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte. São Paulo: Formarte, 2009. 4 Pinturas estas descobertas em 1939 por Luís Saia quando do primeiro restauro da capela. Por falta de tecnologia adequada, foram novamente encobertas pelos altares franciscanos lá dispostos depois da expulsão dos jesuítas em 1759. Redescobertas no ano de 2006, foram relatadas em 2007 ao Iphan e posteriormente enviado um projeto do que possibilitasse a visibilidade das pinturas, sem nenhuma interferência visual, ou seja, a retirada dos altares franciscanos, o que foi negado pelo Iphan. Capela de São Miguel, Restauro, fé, sustentabilidade (Organização de Eduardo Santo com vários autores com textos técnicos). São Paulo: Associação Cultural Beato José de Anchieta, 2001.5 Dissertação de mestrado de Danielle Manoel dos Santos Pereira, A pintura ilusionista no meio norte de Minas Gerais - Diamantina e Serro - e em São Paulo - Mogi das Cruzes. São Paulo: Instituto de Artes da Unesp, 2012. Orientador Prof. Dr. Percival Tirapeli, com bolsa FAPESP. 6 Dissertação de mestrado de Eduardo Murayama Tsutomu, A pintura de Jesuíno do Monte Carmelo na igreja da Ordem Terceira do Carmo de São Paulo. São Paulo: Instituto de Artes da Unesp, 2012. Orientador Prof. Dr. Percival Tirapeli. 7 Dissertação de mestrado de Maria Lucia Bighetti Fioravanti, A pintura franciscana dos séculos XVIII e XIX na cidade de São Paulo: fontes e mentalidades. São Paulo: ECA/USP, 2007. Orientadora Dra. Daisy V. M. Peccinini. 8 Mário de Andrade, A capela de Santo Antônio, artigo escrito para a primeira publicação da Sphan, ainda em 1937, ano em que Mário terminara o anteprojeto para a Serviço do Patrimônio Histórico Artístico Nacional. Revista do Patrimônio, 60 anos: a Revista. Organização Ítalo Campofiorito. Rio de Janeiro: Iphan, 1997. N 26. p. 28.9 Este livro A Infância de Jesus, de autoria do papa Bento XVI, editora Planeta (2012), aborda de maneira cronológica os fatos do Novo Testamento sobre a anunciação e nascimento de Jesus, os fatos explicados à luz da teologia e as relações com passagens do Velho Testamento. De certa maneira, junto com citações bíblicas, os textos me auxiliaram na leitura e interpelações com as cenas ora descobertas. Outros dois volumes completam a trilogia: Jesus de Nazaré - do batismo no Jordão à transfiguração (2007) e Jesus de Nazaré - da entrada em Jerusalém até a ressurreição (2011). 10 Análise segundo os conceitos de Erwin Panofsky em Significado nas artes visuais. São Paulo: Perspectiva, 2009. 11 A denominação das cenas dos desenhos do lado da Epistola são: Abraão a sacrificar seu filho Isaac; Venda de José, o Egípcio, pelos seus irmãos; José, o Egípcio é retirado da cisterna; Moisés atravessa o Mar Vermelho com a Arca d'Aliança; Vista da terra prometida (em pesquisa). As cenas do lado do Evangelho foram assim denominadas: Moisés e a sarça ardente; Moisés faz jorrar água de pedra esquecendo-se de santificar o Senhor; Moisés implora mas Deus o proíbe de entrar na terra santa; Os israelitas apanham o maná enviado por Deus; Moisés eleva uma haste com uma serpente para proteger os israelitas das picadas das serpentes de fogo lançadas como castigo de Deus; Josué e Caleb carregam nas costas uma vara com cachos de uva colhidos em Canaã. As cenas emolduradas são intercaladas com espaços menores e maiores. Acima, cenas de paisagens.12 Nas diretrizes pós tridentinas o retábulo mor deve ser o ponto visual de interesse na igreja contrarreformista segundo os escritos de São Carlos Borromeu de 1577. Cuidado especial deveria ter a execução do sacrário conforme descreve Gabriel Frade em S. Carlos Borromeu e a arquitetura religiosa de seu tempo - o de fabrica ecclesiae. Patrimônio Sacro na América Latina - arquitetura, arte, cultura. São Paulo: Ed. Arte Integrada, 2015. p.69.13 Catálogo da exposição Vestida de sol: Iconografía y memoria de Nuestra Señora de Candelária, Carlos Rodrigues Morales como comissário e diversos autores de textos. O catálogo é precioso em informações sobre a divulgação da devoção de Virgem da Candelária a partir das Ilhas Canárias e enriquecido por análises de obras espanholas e da América Latina. Exposição em San Cristóbal de la Laguna, de 11 de maio a 31 de julho de 2009. 14 As cenas desenhadas ou pintadas na matriz de Itu foram de ampla divulgação pois são as passagens de mais fácil leitura para os fiéis. E para os gravadores, as variações eram quanto à maneira plástica de representação, mas não quanto aos personagens e foram amplamente reeditadas. Aqui se ampliam com os anjos tanto na gravura como na pintura. Bible - Angels - Presentation of Jesus at the Temple of Jerusalem - Candlemas - The Feast of the Purification of the Virgin Mary (François Verdier), Original steel engraving after F. Verdier, engraved by Haussart. 1840.15 Havia então em Jerusalém um homem chamado Simeão. Este homem era justo e temente a Deus, e esperava a consolação de Israel. O espírito Santo estava nele. Tinha-lhe sido revelado pelo Espírito Santo que não veria a morte, sem ver primeiro o Cristo do Senhor. Foi ao templo conduzido pelo Espírito. E levando os pais o Menino Jesus, para cumprirem as prescrições usuais da lei a seu respeito, ele o tomou em seus braços, e louvou a Deus, dizendo: Agora, Senhor, podes deixar partir o teu servo em paz segundo a tua palavra: porque os meus olhos viram a tua salvação, a qual preparaste ante a face de todos os povos; luz para iluminar as nações, e glória de Israel teu povo (Lc 2, 25-35). Para os textos bíblicos foi utilizada A Bíblia Sagrada, Edições Paulinas de 1984, 40ª edição. 16 Havia também uma profetisa, chamada Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser; estava em idade muito avançada, tinha vivido sete anos com seu marido, desde a sua virgindade, e tinha permanecido viúva até os oitenta e quatro anos. Não se afastava do templo, servindo a Deus noite e dia com jejuns e orações. Ela também sobrevindo nesta mesma ocasião, louvava a Deus, e falava dele a todos os de Jerusalém que esperavam a redenção (Lc 2, 36-40). 17 Depois que se completaram os dias da purificação de Maria, segundo a lei de Moisés, levaram-no a Jerusalém para o apresentar ao Senhor, segundo o que está escrito na lei do Senhor: todo o varão primogênito será consagrado ao Senhor, e para oferecerem em sacrifício, conforme o que está escrito na lei do Senhor, um par de rolas ou dois pombinhos. Plasticamente é uma composição complexa com muitos personagens, todos descritos nos textos bíblicos, acrescentando as Tábuas da Lei (para conectar com cenas de Moisés) e um personagem segurando uma grande candeia (nexo com o orago).18 GRACIERS, B. des. e T. Jacomet. Os santos e seus símbolos. Grandes livros da religião. Barcelona: Ediciones Folio, 2008. 19 Anunciação. Estando Isabel no sexto mês, foi enviado o anjo Gabriel a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré a uma virgem desposada com um varão chamado José, da casa de Davi; o nome da Virgem era Maria. Entrando o anjo onde ela estava, disse-lhe: Deus te salve, cheia de graça; o senhor é contigo.(...) O anjo disse-lhe: Não temas, Maria , pois achaste graça diante de Deus; eis que conceberás no teu ventre, e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus.(...) Eis que também Isabel, sua parenta, concebeu um filho na sua velhice; e este é o sexto mês da que se dizia estéril; porque para Deus nada é impossível (Lc 2, 26 -37). Plasticamente seguiu a tradição da severidade franciscana em apenas acrescentar o livro (para o povo, a Bíblia ou livro de orações).20 Visita a Isabel. Naqueles dias, levantando-se Maria, foi com pressa às montanhas, a uma cidade de Judá. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. Aconteceu que apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino saltou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo (Lc. 2, 39 - 41). Plasticamente, suprimiu a cidade e montanhas e acrescentou a figura de São José. 21 Estudo comprovando a vivência de Mathias Teixeira da Silva e sua datação de 1788 encontra-se no artigo de Carlos Gutierrez Cerqueira, Entalhador do retábulo da matriz revela-se em inventário do mecenas da Itu colonial. Em Cadernos do Patrimônio de Itu, Ano I, nº 1 - 2005, p. 16 - 21.22 Aparição divina na sarça ardente. Ora, Moisés apascentava as ovelhas de Jetro, seu sogro, sacerdote de Madian; e, tendo conduzido o rebanho para o interior do deserto, chegou ao monte de Deus, o Horeb. O Senhor apareceu-lhe numa chama de fogo (que saía) do meio de uma sarça, e (Moisés) via que a sarça ardia, sem se consumir. Disse, pois Moisés: irei, e verei esta grande visão, (e verei) por que causa não se consome a sarça. Mas o Senhor vendo que ele se movia para ir ver, chamou Moisés. Ele respondeu: aqui estou. E o senhor disse: não te aproximes daqui: tira as sandálias de teus pés porque o lugar em que estás é uma terra santa. E acrescentou: Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, e o Deus de Jacó. Cobriu Moisés o rosto, porque não ousava olhar para Deus (Êx 3,1- 6). 23 Água do rochedo. O Senhor disse a Moisés: Caminha adiante do povo, toma contigo alguns anciãos de Israel, toma na tua mão a vara com que feriste o rio, e vai. Eis que eu estarei lá diante de ti sobre a pedra do Horeb. Ferirás a pedra e dela sairá água, para que o povo beba. Moisés assim fez na presença dos anciãos de Israel (Êx 17, 5 - 7). 24 Aparição de Deus no Sinai. Já tinha chegado o terceiro dia, e raiava a manhã, e começaram a ouvirem-se trovões, a fuzilar relâmpagos, e uma nuvem espessa cobriu o monte, e o som de uma trombeta troava mito forte; o povo que estava no acampamento atemorizou-se (Êx 19, 16 - 17). 25 Alimento maná. O Senhor falou a Moisés, dizendo: Eu ouvi as murmurações dos filhos de Israel; dizei-lhes pois: à tarde comereis carne e pela manhã sereis saciados de pães (...) apareceu no deserto uma coisa miúda, e como pisada num almofariz, à semelhança de geada sobre a terra (Êx 16, 11 - 14).26 A serpente de bronze. Partiram do monte Hor pela estrada que conduz ao mar Vermelho, para rodearem o país de Edom. O povo começou enfastiar-se do caminho e das fadigas; e, falando contra Deus e contra Moisés, disse: porque nos tirastes do Egito, para morrermos num deserto? (...) Por esta causa o Senhor enviou contra o povo serpentes de fogo e, causando estas chagas e mortes (...) Moisés orou pelo povo e o Senhor disse-lhe: faze uma serpente de bronze, e põe-na por sinal; aquele que, sendo ferido, olhar para ela, viverá. Moisés fez, pois, uma serpente de bronze e pô-la por sinal; e os feridos que olhavam para ela, saravam (Nm 21, 5- 9). 27 E como Moisés levantou no deserto a serpente, assim também importa que seja levantado o Filho do homem, a fim de que todo o que crê nele tenha a vida eterna (Jo 3,14 - 15).28 Os hebreus atravessam o mar Vermelho. O Senhor disse a Moisés: por que clamas a mim? Dize aos filhos de Israel que marchem. Tu levanta a tua vara, estende a sua mão sobre o mar e divide-o, pra que os filhos de Israel caminhem em seco pelo meio do mar (Êx 14, 15 - 16). Nesta cena aparece a Arca da Aliança e ela continha os restos mortais de José, o Egípcio, as Tábuas da Lei que Moisés recebera no monte Sianai e a haste com a serpente de bronze que depois foi destruída por ordem do rei Ezequias. 29 Sacrifício de Abraão. Passado isso, tentou Deus a Abraão, e disse-lhe: Abraão, Abraão E ele respondeu: aqui estou, e Deus disse-lhe: toma Isaac, teu filho único, a quem amas, e vai ao território de Mória, e aí o oferecerás em holocausto sobre um dos montes, que eu te mostrar. (...) Eis que o anjo do Senhor gritou do céu, dizendo: Abraão, Abraão. E ele respondeu: aqui estou. E o anjo disse-lhe: não estendas a tua mão sobre o menino e não lhe faças mal algum: agora conheci que tema a Deus e não perdoaste a teu filho único por amor de mim (Gê 22, 1 - 3; 11 -13). 30 Esta imagem deverá ser verificada pois seu nexo, o desenho menor, foi obstruído. Porém, pela descrição positiva, da redenção do povo de Israel e as duas últimas de Cristo tendo cumprido sua missão, também Moisés teria conduzido o povo até a libertação na terra prometida. 31 José é jogado na cisterna e vendido e levado para o Egito. Ruben, porém, ouvindo isto, esforçava-se por livrá-lo das suas mãos, e dizia: não lhe tireis a vida, nem derrameis o sangue, mas lançai-o nesta cisterna, que está no deserto (...) Logo, pois que José chegou junto de seus irmão, despiram-no da túnica talar de várias cores, e lançaram-no na cisterna velha que não tinha água. Sentando-se para comer pão, viram uns viajantes ismaelitas, que vinham de Galaad, e os seus camelos carregados de aromas, resina, e mirra, para o Egito. (...) É melhor que se venda (José) aos ismaelitas, e que se não manchem as nossas mãos (...) Quando passaram os negociantes ismaelitas, tiraram-no da cisterna, e o venderam por vinte dinheiros de prata aos ismaelitas; estes levam-no para o Egito (Gn 37, 2- 36; 39-48). 32 Discípulos de Emaús. Eis que, no mesmo dia, caminhavam dois deles para uma aldeia, chamada Emaús (...) Iam falando um com o outro sobre tudo o que se tinha passado. Sucedeu que , quando eles iam conversando e discorrendo entre si, aproximou-se deles o próprio Jesus e caminhava com eles (Lc 24, 13 - 15). 33 Adoração dos pastores. Ora, estando ali, aconteceu completarem os dias em que devia dar à luz e deu à luz o seu filho primogênito. Enfaixou-o e o reclinou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na estalagem. Naquela mesma região, havia uns pastores que velavam e faziam guarda ao seu rebanho. Eis que apareceu junto deles um anjo do Senhor, e a glória do Senhor os envolveu com a sua luz e tiveram grande temor. Porém o anjo disse-lhes: não temais porque eis que vos anuncio uma boa nova, que será de grande alegria para todo o povo: nasceu-vos hoje na casa de Davi um Salvador, que é o Cristo, o Senhor. Eis o sinal: Encontrareis um menino em panos e deitado numa manjedoura. Subitamente apareceu com o anjo uma multidão de milícia celeste, louvando a Deus, e dizendo: Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens, de boa vontade. (...) Foram a toda pressa, e encontraram Maria, José e o menino deitado na manjedoura (Lc, 2, 8 -16). Plasticamente a cena aqui retratada suprimiu a multidão de milícia celeste (pois a mesma já se encontra na visão do forro), enfatizando a manjedoura e acrescentando os animais. 34 A apresentação de Maria provém de textos apócrifos de São Tiago narrando que aos três anos, Maria foi levada ao templo por seus pais, Ana e Joaquim, e recebidos pelo sacerdote Zacarias que a educou por doze anos como seu tutor. Iconograficamente é representada junto ou subindo um altar (seu sacrifício). Comemora-se na data de 21 de novembro. Plasticamente o rosto da Virgem aqui tem delicadeza e é ampliado pelo penteado. 35 Batismo de Jesus. Então foi Jesus da Galileia ao Jordão e apresentou-se a João, para ser batizado por ele. (...)Depois que foi batizado Jesus saiu logo da água E eis que se lhe abriram os céus, viu o Espírito de Deus descer como pomba e vir sobre ele (Mt 3, 13 - 17). Teologicamente o Espírito Santo remete aos dons de Deus: Sabedoria, Inteligência, Conciliação, Fortaleza, Ciência, Piedade e Temor. 36 A cena do nascimento de Maria segue a tradição bizantina de cena intimista com o banho da Virgem Menina com várias aias e no leito sua mãe Santa Ana está deitada. Comemora-se seu nascimento dia 8 de setembro. 37 A pecadora aos pés de Jesus. Um dos fariseus pediu-lhe que fosse comer com ele. Tendo entrado na casa do fariseu, pôs-se a mesa. E eis que uma mulher, que era pecadora na cidade, quando soube que ele estava à mesa em casa do fariseu, levou um vaso de alabastro cheio de bálsamo; e, estando a seus pés por detrás dele, começou a banhar-lhe os pés com lágrimas, enxugando-os com os cabelos da sua cabeça , beijava-os e os ungia com o bálsamo (Lc 7, 36 - 38). (...) e algumas mulheres que tinham sido livradas de espíritos malignos e de enfermidades; Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios ( Lc 8, 2). Achavam-se também ali olhando de longe muitas mulheres, que tinham seguido Jesus desde a Galileia, subministrando lhe o necessário. Entre elas estava Maria Madalena, Maria mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu (Mt 27, 55 - 56).38 Ora (Jesus), tendo ressuscitado de manhã, no primeiro dia da semana, apareceu primeiramente a Maria Madalena, da qual tinha expulso sete demônios. Ela foi noticiá-lo aos que tinham andado com ele, os quais estavam aflitos e chorosos (Mc 16, 9). Jesus aparece a Maria Madalena - Entretanto Maria (Madalena) conservava-se da parte de fora do sepulcro, e viu dois anjos vestidos de branco, sentados no lugar onde fora posto o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos seus pés. Eles disseram-lhe; mulher por que choras? Respondeu-lhes: porque levaram o meu Senhor e não sei onde o puseram. Ditas estas palavras voltou-se para trás e viu Jesus de pé mas não sabia que era Jesus. Disselhe Jesus: Mulher, por que choras? A quem procuras? Ela julgando que era o jardineiro, disse-lhe: se tu o levaste, dize-me onde o puseste; eu irei busca-lo. Disse-lhe Jesus: Maria! Ela, voltando-se disse-lhe em hebraico: Rabouni! (que quer dizer mestre). Disse-lhe Jesus, não me toques, ainda não subi para o meu Pai, mas vai a meus irmãos e dize-lhes: Subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus (Jo 20, 19 - 21). Essa figura de Maria Madalena, a da cidade de Magdala, é fácil de identificar como a bela mulher de cabelos longos com os quais enxugou os pés de Jesus depois de perfumá-los. Ela ainda estará ao pé da cruz, na descida e ao terceiro dia ao ir ungir o corpo divino, encontra o túmulo vazio junto com as outras duas Marias. Maria da Betânia é a irmã de Marta e de Lázaro, o ressuscitado e Maria Madalena, a Egipcíaca, também de cabelos longos, é uma anacoreta de período posterior. Nestas pintura Madalena ocupa espaços importantes nas duas cenas, e em ambas genuflexa (como a se arrepender dos pecados ou ainda grata pelo perdão): na primeira, na casa de Simão, toca no homem/Jesus e junto ao outeiro do túmulo, confunde-o com um jardineiro e é impedida de tocá-lo - noli me tangere. Depois de Cristo e Maria, é quem mais se sobressai. O que a iconologia nos revelaria? A missão de Cristo seria o acréscimo aos mandamentos dos hebreus - Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros, e que, assim como eu vos amei, vos ameis também uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros (Jo 13, 34 - 35).39 Ora o Senhor disse a Abraão: sai da tua terra, e da tua parentela, e de casa de teu pai, e vem para a terra que eu te mostrar. E eu farei de ti um grande povo, e te abençoarei, e engrandecerei teu nome e serás bendito (Gn 12, 1-2).40 Sétimo selo. Tendo o Cordeiro aberto o sétimo selo, fez-se silêncio no céu, quase por meia hora. Vi sete anjos, que estavam de pé diante de Deus, aos quais foram dadas sete trombetas (Ap 8, -1- 2).41 Desde a hora sexta até à hora nona, houve trevas sobre toda a terra (Mt 27, 45). Partindo no primeiro dia da semana, de manhã cedo, chegaram ao sepulcro, qual o sol já era nascido (Mc 16, 2). 42 FRADE, Gabriel. Op. cit, 2015, pp. 67 - 70. 43 A pesquisa sobre a participação de Mathias Albuquerque Silva na ornamentação da matriz foi realizada por Carlos Gutierrez Cerqueira, da 9ª SR/IPHAN Iphan-SP. Entalhador do retábulo da matriz, revela-se inventário do mecenas da Itu colonial. In Cadernos do Patrimônio de Itu. Itu: Secretaria Municipal de Cultura, ano 1, nº 1 - 2015, pp. 16 - 21.

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Gravuras
Batismo de Jesus. Woodcut engraving after a drawing by Julius Schnorr von Carolsfeld (German painter, 1794 - 1872), published in 1877.
Homens carregando uvas: Woodcut engraving after a drawing by Julius Schnorr von Carolsfeld (German painter, 1794 - 1872), published in 1877.
Sobre o autor
Percival Tirapeli é professor titular de História da Arte Brasileira no Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista, UNESP, em São Paulo. É conselheiro do CONDEPHAAT (2016-18), membro do Conselho do Acervo Histórico-Artístico dos Palácios do Governo, e membro das associações brasileira e internacional de críticos de artes (ABCA/AICA). Foi consultor do Condephat para tombamento de igrejas no Estado de São Paulo (2005/2008). Consultor no restauro da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, São Paulo, junto à FORMARTE (2007 a 2014) assim como do restauro das pinturas históricas junto ao Ateliê Julio Moraes, como as pinturas parietais da Capela de São Miguel Paulista. É autor de Arquitetura e Urbanismo no Vale do Paraíba (2014), UNESP/Edições SESC. Em 2008 publicou Igrejas Barrocas do Brasil, bilíngue, pela Metalivros e em 2007, São Paulo - Arte e Etnias, pela Imprensa Oficial do Estado/ Editora UNESP.
Publicou Igrejas Paulistas: barroco e rococó, Ed. UNESP e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, que em 2003 ganhou o prêmio Sérgio Milliet como melhor pesquisa nacional em artes, outorgado pela Associação Brasileira de Críticos de Artes.
Outras obras: As mais belas igrejas do Brasil (com Wolfgang Pfeiffer) em 1999, Patrimônio da Humanidade no Brasil, 2000 (5 edições), e Festas de Fé, 2003, todos bilíngues, Igrejas Barrocas do Brasil, 2008, (todas edições em português/inglês), pela Metalivros.
Pela Editora UNESP e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo é organizador e um dos autores de Arte Sacra Colonial: barroco memória viva, 2001. Foi curador das exposições Oratórios Barrocos na Coleção Cristiane e Ary Casagrande e de Vestes Sagradas, no Museu de Arte Sacra,SP, em 2011, cujos catálogos organizou e publicou. Organizou em 2013 e 2015 o I e o II Seminário Internacional Patrimônio Sacro na América Latina, no Mosteiro de São Bento, em São Paulo.
www.tirapeli.pro.br
Coordena, na UNESP, o banco de imagens e dados o Acervo Histórico Cultural em www.acervodigital.unesp.br