ALEXANDRE DUMAS PASIN

ALEXANDRE DUMAS PASIN

Prezados amigos, estou lhes enviando um artigo que escrevi para um trabalho escolar de minha neta. Se for de interesse de vocês a publicação, peço-lhes só fazer isso se conseguirem recuperar as fotografias, pois, sem elas o texto fica esvaziado. Abraços !!!

A PEDRA FUNDAMENTAL

Meu bisavô Vicente Pasin veio da Itália, trouxe consigo, entre outros filhos, Pedro Pasin, meu avô, ele tinha 06 anos de idade. Entre seus documentos, meu bisavô carregava em seu baú um diploma outorgado pelo reino da Itália atestando sua participação, como soldado, na campanha de unificação do país, isto se deu em 1865, nessa guerra lutaram também Giuseppi Garibaldi e Anita Garibaldi, esta a brasileira que a ele se uniu aqui no Brasil nas revoluções acontecidas no sul, as Farroupilhas. O diploma foi assinado pelo rei Victor Emmanoel II, que lhe concedeu também uma pensão, não sei se vitalícia.

Vicente Pasin desembarcou no porto do Rio de Janeiro em novembro de 1888 e foi trabalhar, por 10 anos, nos cafezais da cidade de Bananal. Tiveram também uma passagem, por dois anos, na cidade de São Manoel do Paraíso, região de Botucatu, e já no começo do século 20, vamos encontrá-lo com toda a família no Bairro do Itaguaçu em Aparecida . Após algum tempo, ele comprou uma chácara no Bairro da Santa Rita. A chácara abrangia uma grande área que ia da Rua Santa Rita até a Rodovia São Paulo-Rio, hoje Avenida Getúlio Vargas. Seu filho Ângelo Pasin comprou também uma chácara que ficava do outro lado da rodovia, ali havia um ribeirão que margeava o Morro das Pitas, parte também de sua propriedade, dizem que, posteriormente, ele doou tudo para a construção da nova basílica.

Por outro lado, meu avô, bom pedreiro e agricultor, foi chamado pelo Coronel Pires do Rio para administrar sua fazenda logo mais acima, também separada pela rodovia, em frente o Morro das Pitas. Lá, ele construiu uma grande sede e um depósito de café. Hoje, a fazenda pertence à arquidiocese e é morada dos arcebispos, a capela foi instalada no antigo depósito de café.  - Foto 1

Foi nesse ambiente que, no ano de 1937, eu nasci e me criei. Os Pasin se espalharam por residências construídas em terrenos da antiga chácara. Eu fiz o primeiro ano primário numa escolinha situada onde hoje é o estacionamento da Basílica, tomava banho no ribeirão que movia os moinhos de fubá do tio Ângelo e, por vezes, dormia na fazenda do Pires do Rio, inocentemente chamada de "Fazenda do Vô". No Morro das Pitas, íamos caçar passarinhos, tudo ali parecia ser nosso, o que não era Pasin, de meu avô, era Moreira César, família de minha avó. As casas e quintais eram abertos e liberados para a criançada dessa grande comunidade "Pasin" e "Moreira César".

Por iniciativa de outro irmão de meu avô, Luiz Pasin, levantou-se o Santo Cruzeiro no morro do mesmo nome, hoje, é centro de romarias e peregrinações e terá, em breve, um longo teleférico que irá da Basílica até o seu topo.

Pois bem, delineado todo esse ambiente bucólico onde eu tive o privilégio de nascer e viver meus primeiros anos, vamos à historia onde relato um fato insólito. Corria o ano de 1946, estávamos na festa de Nossa Senhora que, antigamente, acontecia em 08 de setembro. A novena e outras solenidades tinham menos pompa e menos gente que hoje, a basílica era pequena e comportava poucos romeiros. Eu tinha 08 anos e cursava o segundo ano primário, no entanto, já era coroinha, ajudava missas e acolitava cerimônias onde tudo era rezado em latim. Nesse ano, terminada a festa, um evento muito importante estava por acontecer, dois dias depois, haveria uma cerimônia em que seria solenemente implantada a Pedra Fundamental da nova basílica, isto se daria lá no Morro das Pitas onde meus parentes tinham chácaras, onde eu caçava passarinhos, nas terras de minha primeira escola e dos moinhos de fubá.

Na data e hora marcadas, lá estava eu vestindo minha batina vermelha e roquete branco. A maior autoridade presente seria o Cardeal Cerejeira, patriarca de Lisboa e representante do papa Pio XII, havia outros cardeais, bispos, clero e autoridades civis e militares, bandas e tropas da Força Pública. O Cardeal Cerejeira foi recebido como autoridade e hóspede oficial do governo brasileiro. Foram-lhe prestadas honras de chefe de estado. Onde eu estava nesse momento? Incrivelmente, ao seu lado. Foi-me recomendado que o acompanhasse nas cerimônias carregando algum pertence religioso. Tenho a honra de ter sido fotografado à sua frente e guardo até hoje esse troféu. Foto 2

As cerimônias transcorreram com toda a pompa, a urna foi colocada no local que abrigaria o futuro altar central, continha documentos, medalhas, jornais da época, ata da cerimônia, outros objetos religiosos e, em especial, uma caixinha de ouro, esta fora trazida pelo cardeal Cerejeira, continha uma porção de terra extraída junto à capelinha da aparição de Nossa Senhora de Fátima em Portugal, vejam a curiosidade, ELA também foi "Aparecida".

Findas as cerimônias desse dia, marcou-se para o dia seguinte, 11/09/46, a celebração da primeira missa que foi rezada pelo cardeal Mota na parte da manhã. Convocado a comparecer com outros coroinhas, fui incumbido de levar uma almofada que, no transcorrer da Santa Missa, deveria chegar até o celebrante quando acontecesse uma genuflexão. Lá estava eu, mais uma vez, ao lado da maior autoridade eclesiástica do dia, fui fotografado segurando a almofada e posando para a história da Nova Basílica Nacional que, hoje, imponente, ocupa toda área em que nasci, estudei e vivi os primeiros anos de minha infância. - Fotos 3 e 4

SALVE MARIA !!!

 CASA DE NOSSA SENHORA

"Jardins viçosos, ciprestes em alameda,fachada majestosa, janelões de vidro...portais se abrem a um convite amigo transpor umbrais da soberana casa..."

Corria ao ano de 1951. O diretor do colegião (1) era o Pe. José Ribola. Às 5 h da manhã daquele dia, dentro da rotina à qual já nos acostumáramos, bate a sineta convocando-nos às primeiras orações, meditação e missa. Todos já na capela, Pe. Ribola, ansioso, se apressa em nos comunicar a boa nova: naquele dia chegaria uma visita muito importante e pedia-nos que a recebêssemos como uma bênção e nos tornássemos seus guardiões pelo tempo necessário de sua permanência entre nós. Essa grata visita seria nada menos que a pequena imagem da Virgem Aparecida, a mesma encontrada e retirada das águas do rio Paraíba por três pescadores. E o "porquê" de tão ilustre visita? Tudo bem explicado: a imagem de barro, retirada das águas em duas partes, já não suportava as inúmeras colagens feitas ao longo de mais de duzentos anos desde seu achado. No seminário, tínhamos um padre novinho, recém-chegado de Tietê, com grande fama de artista, padre Isidro, a quem caberia o reparo definitivo na imagem. Pois bem, o trabalho foi iniciado em ateliê montado na própria cela do Pe. Izidro e acompanhado, é claro, por curiosos devotos entre os quais me incluo. Era a oportunidade de tocar a Santinha e pedir-lhe a graça mais desejada: a perseverança na vocação.

Feito o serviço, era necessário um tempo para que o material usado secasse e se comprovasse eficiente. Então, a imagem foi levada para nossa capela e colocada à direita do altar mor, em outro pequeno altar, já dedicado a Nsa. Senhora. No recreio um seminarista alarmista, talvez o Bianor, ensejou que à noite a imagem se transmudaria para seu nicho na basílica, repetindo o milagre acontecido nos primórdios de sua história (2), quando foi levada para por várias vezes para a matriz de Guaratinguetá e nos dias seguintes reaparecia misteriosamente em seu tosco altar na capela do Morro dos Coqueiros.

Na madrugada daquela noite, acordei sobressaltado. O dormitório dos menores era no mesmo andar da capela. Um prenúncio de que testemunharia o milagre me fez levantar. Saí pelo largo corredor, cuja única luz, pequena e vermelha, encimava o enorme crucifixo à frente das escadarias. O carrilhão da capela dos padres disparou seus badalos melodiosos anunciando preguiçosamente três horas. No fundo, a porta de vidros da capela refletia a chama tremulante da lamparina do sacrário. Temeroso, me acheguei, abri a porta e mirei o altar. Lá estava a imagem, quietinha, de mãos postas, satisfeita com o seu lar provisório. Provisório? Nem tanto, afinal de contas, lá fora, na fachada majestosa do nosso colegião, em cima do portal, as letras garrafais já anunciavam, desde sua construção e agora mais do que nunca, a inscrição "CASA DE NOSSA SENHORA".

(O prédio hoje. Onde estava escrito 'Casa de Nossa Senhora', se escreve 'Seminário Bom Jesus')

Dois dias depois, acredito que um pouco tristonha, Ela nos deixou e voltou ao seu lar de trabalho. SALVE, REGINA! (3)

Alexandre Dumas Pasin de Menezes, nascido em Aparecida, seminarista entre 1949 e 1955.

Notas:

(1) Prédio majestoso, todo em tijolo aparente, vermelho, construído no início do sec. XX, para ser seminário da arquidiocese de São Paulo, em parte descrito na quadrinha acima. Trazia os dizeres "Casa de Nossa Senhora". Conhecido popularmente como colegião, por muitos anos abrigou o Seminário Redentorista Sto. Afonso, até 1952. Hoje, denominado Seminário Bom Jesus, funciona como seminário maior da arquidiocese de Aparecida.

(2) lenda popular largamente difundida na região.

(3) Tradução "Salve, Rainha!" ( o autor gosta muito de cantar em gregoriano esta bela e antiga oração mariana).

Morreu, em 06/11/2010 , meu irmão Orlando Geraldo Menezes. Ele era amigo dos redentoristas, em cuja comunidade de Aparecida foi criado e teve toda a sua formação religiosa. Ali nasceu e foi batisado na basílica velha, tendo como padrinho São Geraldo, de quem levou o nome. Ali também foi congregado mariano e cantor do coro. Ingressou na Escola Militar do Barro Branco e se aposentou como coronel PM. Compareceu a vários encontros da Uneser, sempre trazia cerveja preta para o padre Libardi. Foi seminarista dos padres capuchinhos em Piracicaba, em cujo seminário permaneceu por três anos. Orlando deixou-nos uma vasta obra de crônicas e poesias, era fã incondicional de Monteiro Lobato. Transcrevo aqui uma de suas poesias que muito me toca, pois fala dos sinos da basílica velha que nós, em nossa infância, tínhamos como parte de nosso dia a dia no bairro de Santa Rita. Éramos netos de italianos e tivemos uma forte formação católica e costumes que reportavam sempre a fé trazida de Treviso, no Veneto, terra de nosso antepassados.

OS SINOS DE MINHA TERRA

"Bença mãe, bença vó, bença tia" !
Naqueles tempos de outrora
Naquela sagrada hora
Singelo e devoto grito

Que da alma inocente saia
Como num instintivo rito
E co'o badalar confundia
Dos sinos de Aparecida
Os sinos de minha vida.


Sempre naquela hora
Saudosos tempos de outrora
Os sinos de Nossa Senhora
Recordando hoje, e quanto !
Que ao badalar de meus sinos
Co'a alma cheia de encantos
Todos nós inda meninos
Numa infantil louvação:
"Bença mãe, bença vó, bença tia" !
Os sinos do meio dia
Meiga e piedosa oração.


Agora, saudade dorida !
Sentindo um vazio na vida
Restando em cinzas meus sonhos
Por mais que eu queira clamar
Vou compreendendo tristonho
Por mais que eu queira rogar
Que não mais ninguém responde
Na lembrança a dor se esconde
A mesma fé inda existe
O badalar inda insiste
Pois que inda tocam os meus sinos
Mas não existem os meninos.

ALEXANDRE DUMAS PASIN