MÁRIO BIMBATO

A FAZENDA DO SALTO

Mario Bimbato

Prólogo

Canta, ó Musa, a aurora

Da minha vida na Fazenda

Do Salto, transformada outrora

Da minha infância na vivenda.

Canta os primórdios da vida

Na terna e tão doce plaga,

Da minha infância querida,

Da meninice minha saga.

Cantando, e assim dividir

Com outros a minha sorte,

E destarte repartir

Destes versos o aporte.

Aos leitores (se é que os tenho)

Querendo comunicar,

Com toda arte e engenho,

Minha epopeia e falar.

A Fazenda

Foi lá na Fazenda do Salto,

Num vale coberto de flor,

De Goiás no belo Planalto,

Junto à Serra do Tombador,

Que minha infância eu vivi,

Numa área bucólica e serena,

Que fica bem longe daqui,

Onde sopra uma aura amena.

Esse nome a Fazenda tinha,

Pois do Salto do Corumbá,

Ficava bastante vizinha,

Cerca de mil passos de lá.

O lugar era um paraíso,

Por Deus ali colocado:

Da natureza o sorriso,

Num idílio abençoado.

A Fazenda bois não criava,

Por causa de erva daninha,

Que o animal cedo matava,

E assim, pois, nenhum boi tinha.

Mario de Andrade

Parodiando então,

A Serra do Tombador

Não tinha esse nome, não.

Ali tombou carro e caminhão,

Tanto, que do Tombador
Se chamou, desde então,

Do Tombador, sim, senhor.

Na Serra do Tombador,

Com vista para o Salto,

No cimo, seja donde for,

Sopra o vento rijo do alto.

O rio Corumbá

O Corumbá tem nascente

Dos Pireneus lá na Serra,

E vai em sua corrente,

Para o sul serpeando a terra.

A quatro léguas do lugar,

Onde nasce, um belo salto

Vai majestoso formar,

De um penhasco bem alto:

É o Salto do Corumbá,

Que borbota sobranceiro,

Agitando as águas lá,

Onde cai num desfiladeiro.

As cascatas que eu vejo cá,

Por bela que seja a visão,

Não são como as do Corumbá,

Não cantam como as do Salto, não.

Da casa onde eu morava,

O murmurar da cachoeira

De noite eu bem escutava,

A espadanar na pedreira.

Já o rio margeando,

Muito buriti havia,

Uma palmeira espalmada,

Que altaneira se via.

O Corumbá, outrora piscoso

Já foi do Salto na região:

Dourado, o mais vistoso,

Dos peixes que havia então.

Uma elevada barragem,

Mais abaixo construída,

Dos montes entre a passagem,

Impediu-lhes a subida.

Corumbá é o nome também

Da cidade que fica a jusante,

Na vertente de um morro além,

Duas léguas e meia adiante.

A propósito, o Salto jaz

Nos limites do município

De Corumbá-de-Goiás,

Diga-se logo em princípio.

O Corumbá leva mensagem

Lá do sertão para o mar:

Alguém disse com a vantagem

De quem bem sabia falar.

Bernardo Elis, escritor,

Em Corumbá nascido,

Foi outrossim o autor

Do dito acima referido.

Aos Imortais na Academia,

Relatou no discurso

De posse, com maestria,

Do Corumbá o percurso:

Desde a sua nascente,

Na Serra dos Pirineus,

Até o Salto mais à frente,

Descrevendo aos pares seus.

A sede da Fazenda

Lá do Salto a Fazenda

Tinha uma sede senhorial,

Uma elegante vivenda,

De estilo colonial:

Ornada de beirais formosos,

Com flor de lis rematados,

E telhados primorosos,

Que se viam dos lados.

E vidraças que se abriam

Nas paredes da mansão,

Ali também se viam

Adornando o casarão.

À Diocese pertencente,

Recebida por doação,

De repouso como ambiente,

Ao clero servia então.

Foi o fazendeiro João Paulino

Da doação o autor,

Um cavalheiro grã-fino,

Homem de grande valor.

Era Dom Emanuel

O arcebispo de Goiás,

Louvado em gente fiel,

De meu pai mandou atrás.

Dom Emanuel, assim dizem,

Queria alguém audacioso,

De italiana origem,

Honesto e operoso.

De ascendência italiana,

Capixaba de nascença,

Caiu meu pai na diocesana

Do prelado preferência.

Do Padre Trindade, aliás,

Deputado Federal,

Pelo Estado de Goiás,

Era amigo pessoal.

Tal relação foi importante

Para a vida futura:

A amizade constante

Cria uma base segura.

Pela autoridade eclesial

Foi meu pai então convidado

A tomar conta do local,

Para tanto preparado.

O convite adrede veio -

Uma oportunidade de truz -

Sem terra para o semeio,

Surgiu como uma luz.

Com ele, Domingos Bimbato,

Morador de Cachoeiro,

Dom Emanuel fez um trato,

Em que não entrava dinheiro:

Salário não recebia,

Mas o que colhia e criava,

Tudo a papai pertencia,

E desse modo se pagava.

Saindo de Cachoeiro

Eu sou, modéstia à parte,

Da cidade de Cachoeiro

De Itapemirim, destarte,

Vou brincando galhofeiro.

Assim gostam de brincar,

Com certo engenho e arte,

As pessoas do lugar,

De tal fazendo estandarte.

Eu nasci na zona rural,

O ano inteiro cultivada,

De viçoso cafezal,

Pela brava italianada.

De lá eu pequeno saí,

Para o sertão de Goiás -

Um lugar distante daqui,

Que os anos não trazem mais.

Com meus pais e minha irmã

Dalva, inda criança de colo,

Partimos então de manhã,

Com a matula a tiracolo.

De Cachoeiro saímos,

Fazendo a viagem de trem,

Dali, assim, nós partimos,

Com nossa honra também.

Andamos por longes terras,

Em nossa longa jornada,

Cruzamos por várias serras

E planícies na estrada.

A Anápolis, em hora

Matutina, chegamos,

Donde fomos embora,

De carro de boi e viajamos:

O carro com seu buu,

Causado pelo cocão -

Puxado por boi zebu -

Do mancal por fricção;

Sentados no requebém,

Com folhas de bananeira

Contra o sol cobertos também,

Protegidos dessa maneira.

Numa fazenda paramos,

De Corumbá na estrada,

Ali então demoramos

Alguns dias de estada.

Era Clemente Altoé,

Quem dessas terras cuidava,

Preposto de Dom Emanuel,

Que com este versava.

De papai conhecido,

Clemente era também

Em Cachoeiro nascido,

Operoso como ninguém.

Corumbá-de-Goiás

De carro de boi novamente,

A Corumbá nós chegamos -

Uma cidade envolvente -

Onde alguns dias ficamos.

Pelos bandeirantes

Fundada, à cata de ouro,

Em suas idas constantes

À busca então de tesouro.

A cidade inda conserva,

Em seus casarões, a colonial

Aparência, e preserva

A tradição cultural.

Sendo de Dom Emanuel

Muito bem referido,

Do qual amigo fiel,

E por ele protegido;

Somou também a amizade,

Para a gente do lugar,

Com o Padre Trindade,

Para a crédito comprar:

Mantimentos e semente,

Pois, a Corumbá ele chegou,

Sem dinheiro, insolvente,

E tudo fiado comprou.

Mais utensílios de cozinha,

Ferramentas para lavoura

E o que mais convinha,

Como roupas e tesoura.

Deus foi servido ajudar,

Pois, só depois da colheita,

Comprou para então pagar,

Que assim faz a gente direita.

Entre os comerciantes,

Que lhe venderam fiado,

Foram os negociantes

Edmir e Felinho Curado.

E cumpre mencionar

Juquinha e Inácio também,

Entre as pessoas do lugar,

Que assim lhe venderam, pois bem.

Canto dos ilustres varões

A sua benevolência,

Que, em várias ocasiões,

Provaram a munificência.

Em nome, pois, de meu pai

E de meu próprio também,

Esta mensagem aqui vai

De quem agradece a alguém.

Até do Salto à Fazenda,

De carro de boi outra vez,

Segundo a nossa agenda,

Mostramos intrepidez.

Numa casa arejada,

Junto à sede construída,

Fixamos nossa morada,

E ali vivemos a vida.

Com meus pais e minha irmãzinha,

Sem nenhum vizinho por perto,

Vivi como a ave que aninha,

Na solitude do deserto.

Mal me lembro da viagem,

Pois nem dois anos eu tinha,

Só uma pálida imagem

Ficou na memória minha.

Leia mais: https://www.uneser.com.br/nossos-poetas-e-escritores/mario-bimbato/

Doces recordações

Homero, o poeta, imitando,

A Aurora com seus róseos dedos,

O sol já vai radiando,

Sorrindo nos arvoredos.

Também vistoso e luzido,

Era o anoitecer -

E o céu de estrela esparzido -

Que esplêndido era de ver!

Outrossim, na alvorada,

Daquele aprazível lugar,

Alegre, a passarada

Começa feliz a cantar.

De Mindinha Villa-Lobos,

Vou esta letra entoar,

Que tem os suaves arroubos

Da madrugada a raiar:

"Lá no céu,

A estrela d'alva anuncia

O nascer

De mais um formoso dia."

"O galo canta bem cedinho,

Despertando a caboclada,

A passarada deixa o ninho,

E vem saudar a alvorada."

Uma adutora captava

No Salto água cristalina,

Que, por um rego banhava

A Fazenda, como da mina;

Rente à minha morada,

De rosas e lírios margeado,

Perfumoso na valada,

Que eu aspirava deliciado.

Enquanto mamãe, lavando

Roupa, cantava, eu ouvia,

No rego me banhando,

E encantado me sentia.

Mamãe meu berço afofava

De paina com travesseiro,

E eu então me acomodava

No leito, feliz e fagueiro.

Visitas ilustres

Certa vez à Fazenda veio

O arcebispo, Dom Emanuel,

Em seu fino Lincoln a passeio,

E com seu típico anel.

Doutra feita, foi Dom Abel,

Então bispo de Goiás,

De carro, e um padre fiel,

Que o dia ali passou, aliás.

Geraldo Campos, o prefeito,

De Corumbá, pois, então -

Um cidadão mui direito -

Vinha em seu caminhão.

Num domingo, pela manhã,

Vieram com o Padre Cirilo,

Mizita e Goiany, sua irmã,

Vestidas em faceiro estilo.

Mizita, a estimada diretora,

Da escola, com grã valor,

De Corumbá, era a flora,

E Goyany, também uma flor.

Ambas de lá professoras,

Foram com o Padre CiriloPassear no rio por horas,

Onde cantava o grilo.

De quando em quando era a visita

De Clemente Altoé -

Que vinha em sua égua catita -

E nosso amigo de fé.

Clemente depois se tornou

De crisma o meu padrinho,

Por isso, então me estimou,

Sempre com muito carinho.

Para as ilustres visitas,

Mamãe galinha preparava

Com polenta, que, das ditas

Pessoas, cada qual saboreava.

Nossos vizinhos

Nosso mais próximo vizinho

Era o fazendeiro Silvestre,

De Corumbá no caminho,

Em sua morada campestre.

Ali havia um monjolo,

Movido pela água dum rego,

Batendo, quebrando o miolo

Dos grãos, no ledo sossego.

Silvestre e Babita, sua esposa,

Atentos nos recebia,

Ela, mui gentil e bondosa,

Quitute nos oferecia.

Mais adiante ficava

De Bernardo Aquilaz

A estância, onde criava

Boiada, com um capataz.

Ele e Branca, a esposa,

De jabuticaba possuíam

Uma floresta viçosa

E muitos lá então iam

As frutas chupar, um bocado;

Jabuticaba ali havia

Tanta, que eu, no pé trepado,

A fruta, guloso, engolia.

No caminho acedente,

Margeado de muita flor,

Ao longe, na vertente

Da Serra do Tombador,

Surgiam formosos regatos -

Um vistoso panorama -

Descendo, pelos verdes matos

Da Serra, por entre a rama.

Na crista da Serra se via,

Altaneiro e isolado,

Um buriti, que sobressaía,

"Buriti Sozinho", chamado.

Pinduca era o sitiante

Mais próximo da Fazenda,

Ao norte, uma légua distante,

Popular dono de uma venda.

Sua casa então se via,

Após uma aguada,

Que nessa época havia,

De buritis margeada.

Outras lembranças

Havia muita goiabeira,

Também mangueiras havia,

Limoeiro e laranjeira,

Na Fazenda bravia.

Na quinta, de todo lado,

Ouvia-se, de cá e de lá,

Do pas'so preto o trinado

E o canto do sabiá.

A cercania da Fazenda

Do Salto do Corumbá

Era outrossim a vivenda

Do garboso lobo guará,

Que, em bando, à noite uivava,

De minha casa junto ao muro,

E eu, com medo, escutava

O ulular no escuro.

Luz elétrica não havia,

Naquele distante sertão:

Quando o sol se escondia,

Era uma escuridão.

O poente, o sol refletindo,

Nas pedras da montanha,

Parecia uma onça rugindo:

Coisa realmente estranha.

A Serra dos Pireneus

A Serra dos Pireneus,

Cerca de uma légua distante

Lá da Fazenda, nos seus

Montes encerra bastante

Riqueza aos visitantes,

Como cristais de vária cor,

Nos caminhos circundantes,

E bem mais coisas de valor.

Na crista da Serra se via

Uma capela estadeando,

De quartzo verde a alvenaria,

Dentro revestida estando.

Sítio de anual romaria,

Muita gente ali acampava,

Rezando a Ave-Maria,

E ao pé da igrejinha cantava.

Lobisomeme outras histórias

Do lobisomem se dizia

Que, em noite de lua cheia,

Às vezes aparecia -

Um bicho de cara mui feia.

Algum visitante jurava

Ter visto assombração,

Que os passantes assustava,

E causava estupefação.

Às vezes era a folhagem,

Pelo vento revolvida,

A origem, então, da miragem

De coisas da outra vida.

De casas mal-assombradas

Também se ouvia falar,

Mormente de moradas,

Retiradas do lugar

Era voz então propalada

Que índios por perto havia,

De assustar a petizada,

Que, sozinho, longe não ia;

Longe não ia o menino,

Com medo de ser capturado

Por índios, e ser o bambino

Pra longe, bem longe levado.

Pirilampos

Ao anoitecer, pelos campos,

Que ao longe se estendiam,

Se viam os pirilampos,

Que em nuvens entreluziam.

Canto o insigne poeta,

"O Condoreiro" baiano,

Que, como ninguém, interpreta

O sentimento brasiliano:

"E, em lindos cardumes,

Sutis vagalumes

Acendem os lumes

Pro baile na flor."

"E então nas arcadas

Das pétalas doiradas,

Os grilos em festa

Começam a orquestra

Febris a tocar..."

Disparada a cavalo

Eu montava um cavalo baio,

Chamado Douradinho,

Aprendi com algum ensaio,

Ele era bastante mansinho.

Papai ua mula cavalgava,

Chamada Capetinha,

Era arisca e pulava,

Com quem prática não tinha.

Aos cinco anos de idade,

Montado no Douradinho,

Ia com meu pai à cidade,

Ele, na besta, a caminho.

Certa vez, meu cavalo,

De Corumbá na estrada,

Disparou assim de estalo,

Galopando em retirada,

Por uma fêmea atraído;

As rédeas, firme, segurei,

No arreio firmei, soerguido,

Até que a montaria parei.

Papai depois me alcançou,

A Capetinha trotando;

A disparada não me assustou,

E prossegui cavalgando.

A companhia de estradas

Junto a Deus intercessora,

A clemente Virgem Maria,

Enviou-nos em boa hora

De estradas uma companhia.

Quinhentos sóis já eram passados,

Quando ali acampou,

E então praqueles lados,

Uma companhia assentou:

Construir uma estrada,

Que até ao norte do Estado,

Ligasse, na empreitada,

Anápolis, pelo cerrado,

E cortasse a serrania,

No audacioso projeto,

Rompendo a mata bravia,

E os campos, cruzando aberto.

Com pás, enxadões e enxadas,

Carroças pra tirar a terra,

Por tropa de mulas puxadas,

E picaretas cortando a serra.

Às vezes, a dinamite,

Estrondosa, explodia,

Quebrando o arrebite,

Da angulosa pedraria.

A companhia fez seu escritório

Lá na sede da Fazenda,

Onde instalou o diretório,

E fazia sua agenda.

Era Mário, jovem engenheiro,

Quem chefiava a companhia

E o pessoal empreiteiro

Da empresa que ali construía.

De manhã, bem cedinho,

Na bica eu o encontrava,

Quando ele estava sozinho,

Enquanto o rosto lavava.

Uma vitrola, movida

A manivela, entoava

Música ali ouvida;

Entre outras, se escutava:

"Sereno, sereno cai,

Sereno deixou cair,

Sereno da madrugada

Não deixou meu bem dormir."

Com o pessoal ali acampado,

Mamãe, com base na troca,

Aprendeu um bom bocado

De cuscuz, a beiju e tapioca.

Matando um boi

Certa vez, presenciei

Um boi nelore abater,

E então, pasmo, vivenciei

O sangue da goela a correr.

A gente, em silêncio, assistia

À cena cruenta, e o animal,

Sem tugir nem mugir, nem gemia,

Até que dobrou o espinhal.

Polenta e outras iguarias

Polenta eu também comia,

E carne da lata de banha,

O leite de cabra eu bebia

Saúde que se arrebanha.

No terreiro da doce morada,

Uma engenhoca havia,

Onde da cana imprensada,

Garapa então se bebia.

Papai capado matava,

Linguiça e chouriço fazia -

O porco bem dissecava -

Mostrando-lhe a anatomia.

Do toucinho banha fazia,

Que em latas guardava,

E a carne, que, sempre havia,

Assim também conservava.

Não havendo geladeira,

Nem sequer, energia

Elétrica, era, pois, a maneira

De manter a caloria.

Já, então, a carne de gado,

Num arame, salgada,

Permanecia um bocado

Ao sol, assim conservada.

Da carne de porco a linguiça,

Também após temperada,

Ao sol secava inteiriça,

E assaz apimentada.

A noite se clareava,

À luz de um lampião,

Que a casa iluminava,

Quando era a ocasião.

A velha cigana

Uma cigana anciã vendeu

A mamãe uma chaleira

De cobre, e escondeu

O defeito de maneira

Que, olhando, não se via;

Minha mãe de boa-fé comprou,

Pois a bom preço a adquiria,

E a chaleira assim pagou.

Mais tarde viu que havia

Sido pela cigana lograda,

Pois, sem saber, adquiria

Da velha uma peça furada.

Mamãe ficou furiosa,

Mas, quando a raiva passou,

Tornou-se então briosa,

E à bruxa apelidou

"Concom", chamando à cigana,

E da anciã a dicção imitando,

Pois, assim, a ratazana

Vivia pronunciando.

O boró

O pessoal da companhia

Era pago com o boró,

Cartão que dinheiro valia,

Fiado no crédito, só.

O boró também circulava

Na cidade como dinheiro,

Pois então escasseava

Na praça o novel cruzeiro.

Não só este escasseava,

Como já não se imprimia

O mil réis, que também faltava,

E a patuleia, esta sofria.

A companhia ficou

Dois anos ali acampada,

E muita saudade deixou

De sua alegre estada.

Os bichos da Fazenda

Meu cão, Vigilante chamado,

Em minhas pernas se enroscava,

Com isso querendo agrado,

E eu seu dorso afagava.

De nome Xingu, o meu gato,

Com ele eu às vezes brincava,

Eu fazia gato e sapato,

E Xingu nem sempre gostava.

Certa vez puxei o seu rabo,

E o gato minha perna dentou:

Casou-me um ferimento brabo,

E mamãe com tição queimou.

Foi a Divina Providência,

Que sua mão guiou:

Eu não tinha consciência

Do mal que me ameaçou.

Tal ação foi providencial:

Eu, por certo, escapei

De uma infecção, talvez fatal,

E de dor eu gritei, gritei.

Os porcos daquela morada

Viviam soltos, uma beleza,

Que primorosa porcada,

A mais bela da redondeza!

Amiúde a manada ia

Espojar-se num pantanal,

Que na vizinhança havia,

Perto de um mangueiral.

Após chegar a companhia,

Todo o conjunto porcino -

O seu grunhido se ouvia -

Ficou preso no esterquilino.