TOPONÍMIA - Por Alexandre Dumas Pasin

Prólogo :-
 
 
 
 
1) Esteve, recentemente, em casa,  um técnico de antenas parabólicas chamado Waldemar. Pessoa já conhecida há longa data, nos serve com presteza e tem intimidade bastante para contar -nos  coisas    não só  de sua vida particular como de negócios realizados. Desta feita, falou-nos da compra  de uma pequena chácara na cidade do Potim, nas proximidades do "Maracanãzinho", lá p'ro lado do seminário dos padres redentoristas. 
 
2) Quando ingressei no seminário, em 02.02.49, lá encontrei o Pe. Pereira, nosso diretor, professor de ciências e português. Atribuiu-me o número "51" para marcar  roupas e outros pertences, recomendando que cuidasse bem desse número, pois pertencera a outro aparecidense, Teixeira, que  tinha ido para o noviciado. Gostei, pois aquele número era também o da minha casa, bem ali na Rua da Estação, a ,exatamente, 51 metros dos portões do Colegião. À medida que fui conhecendo Pe. Pereira, percebi que, além das qualidades inerentes às funções acima, gostava também de dar nomes a lugares,  apelidos aos seminaristas e de inventar palavras que não eram encontradas no dicionário:-  "PIRAMIDAL" significava tudo que era bom, gostoso, adequado, bonito, etc. .
"PIRULITO" foi atribuído ao Zompero, "NOVARRO" ao Silva, "TEREZO" ao Antonio de Santa Terezinha Maciel. Havia ainda os "PROFETAS", referência  aos irmãos Elias, Elizeu e Josué, recentemente chegados da Penha. Defendia sempre o nome "PEDRINHA" para o nosso seminário no bairro do mesmo nome, isto porque ficava no sopé de uma enorme pedra , que só tinha esse nome diminutivo em função de outra  bem maior existente na parte mais alta da montanha, à qual era  atribuída a denominação de "Pedrona" .  Acredito que nada vingou, pois, o bairro, hoje,  é conhecido por "Pedrinhas" e a Pedrona como "Pedra Grande".  Pe. Pereira dava nome também a todo lugar visitado em nossos passeios, Genipapo, Cachoeiras de São Paulo, Poço do Ouriço, entre outros que não me lembro. Existe um em especial, cuja história passo a contar. 
 
 
                 " MARACANÃZINHO"
 
 
    Estávamos no ano de 1950, mês de julho, já havia acontecido a tragédia do Maracanã, o Brasil perdera a final para o Uruguai, isto muito nos entristeceu. Voltamos da Pedrinha nos últimos dias do mês, já nos preparávamos para a festa de Santo Afonso e o reinício das aulas e Pe. Pereira ainda encontrou uma brechinha para um passeio extra, seria lá p'ras bandas do Jacarezinho, lugar situado a jusante do Jacaré, ribeirão que atravessávamos no caminho da Pedrinha. Saímos cedo e, lá pelas oito horas, já estávamos montando a cozinha num lugar bem perto da ponte   que dava acesso às terras da "Fazenda Amarela". Os cozinheiros foram preparar o quentão e a gurizada foi procurar um bom poço para mergulhar na água gelada. De tempo em tempo, visitávamos
 a cozinha para tomar o quentão, servido sempre à vontade. Feitas, ainda, algumas incursões nos arredores, chegou a hora do almoço, que era  anunciado com um longo apito. Barriga cheia, padre Pereira determinou que levantássemos acampamento para voltarmos, desta feita,  por outro caminho. Fomos seguindo o curso do ribeirão, em direção ao Paraíba, por uma região nunca explorada. Chegamos a uma esplanada encimada por um bambual , em cuja sombra acampamos para o lanche da tarde. Os menores partiram para o ribeirão,  com a recomendação de não se aproximarem do Paraíba. Médios e maiores queriam jogar uma pelada, pois tinham trazido a bola. Não havia lugar melhor, estava ali à nossa frente um pasto verdinho, em terreno quase plano,  precisando somente de  limpeza de algumas touceiras existentes. Oitenta peões improvisados limparam a área em poucos minutos. Os gols foram feitos de bambu seco e a bola começou a rolar. Primeiro os médios, depois os maiores. Foi um dia memorável. Às quatro horas, apito final e lanche, só para variar , queijo mineiro,  goiabada e groselha.  Depois disso, rezamos, agradecemos,cantamos o "Salve Regina" e Pe. Pereira pediu a palavra. Elogiou o comportamento de todos e aproveitou o ensejo para dar a sugestão de um nome para o lugar:-  Para lembrar o grande estádio da Copa do Mundo, recentemente encerrada, o  campo ora inaugurado chamar-se-ia "Novo Maracanã" . A plebe não concordou e sugeriu "MARACANÃZINHO". Estava batizado aquele santuário da bola ao qual voltamos sempre, pelo menos até 1956, quando saí do seminário. Posteriormente, os redentoristas compraram a área e ali instalaram o Seminário São Geraldo. O nome "Maracanãzinho", só agora eu fiquei sabendo, foi estendido à região e adotado pela prefeitura de Potim.
 
    Naquele dia, voltamos às dezessete horas. Formávamos 3 pelotões, menores, médios e maiores, à frente  eram colocados 4 maiores, que imprimiam marcha acelerada à falange . Pe Pereira gostava que cantássemos , geralmente, sua preferência era aquele hino que tinha a letra adaptada a uma melodia de guerra alemã, talvez, até nazista : - 
 
                  Jovens, lá do alto, Cristo vos acena,
                  Vamos desfraldar o seu Santo Emblema,
                   Pois, já soou do combate o sinal,
                   Marcham soberbas as hostes do mal !
 
                          Viva Jesus ,
                          Rei e Senhor,
                          Nós venceremos
                          Por sua Cruz !
 
 
 
 
                   Uma Cruz de estrelas, lá no céu de anil,
                   Mostra-nos a crença de nosso Brasil.
                   Quer o inimigo essa Cruz apagar
                   E nossa crença sagrada abafar !
 
                           Viva Jesus,
                            Rei e Senhor,
                            Nós venceremos
                            Por sua Cruz !     
 
    Chegamos ao Paraiba, pegamos a balsa e, como de costume, entoamos o "Ave Maris Stella " . O sol já se escondia por detrás da Mantiqueira, deixando uma tênue luminosidade refletida  nas águas escuras do rio. A nostalgia se tornou presente.....
 
 
                       Epílogo
 
 
    Pontos distantes de meu passado, que se fazem presentes a todo instante, me enchem de orgulho de ter vivido a pureza de um ideal, ter tido mestres de inigualável grandeza ,  com sabedoria para educar-nos e discernimento para conduzir-nos para o BEM !
 
                     SALVE MARIA !!!             


Autor:ALEXANDRE DUMAS PASIN DE MENEZES
E-Mail:
Data de Criação : 2010-07-17

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