O Templo, a Igreja e a política

06/08/2014 10:35

 

Marcelo Barros*
 
Marcelo Barros - biblista e teólogo
 
Nesses dias, a Igreja Universal do Reino de Deus inaugurou em São Paulo uma réplica do “Templo de Salomão”. Os jornais chamam a atenção para a suntuosidade da obra. Afirmam que a construção tem pedras trazidas de Israel e o altar e a arca da aliança são cobertos de ouro. O templo custou 685 milhões e pode receber 10 mil fiéis. Os comentários tocam nesses pontos, mas não se perguntam sobre o sentido disso tudo. Para que construir, hoje, um templo, concebido a partir de um modelo de mil anos antes de Cristo e a esse preço?
 
Não compete a ninguém julgar a fé de um crente, menos ainda de uma Igreja. Não é esse o objetivo dessas linhas. No entanto, podemos, sim, tirar de cada fato da vida uma lição para as nossas vidas e para nossas comunidades.
 
Desde a antiguidade, as religiões constroem templos. Antigamente, os reis exibiam o seu poder com palácios imponentes. E ao lado do palácio, construíam um templo. Além da finalidade religiosa – ser o lugar dos sacrifícios oferecidos à divindade, o templo servia para legitimar o poder dos poderosos. O próprio templo de Salomão foi construído assim. Através do profeta Natã, Deus tinha dito a Davi que não queria templo. Um ser humano, descendente de Davi, seria, em si mesmo, a morada divina (Cf. 2Sm 7). Os cristãos interpretam que esse homem no qual Deus decidiu morar é Jesus Cristo. Jesus partilhou com todos nós a graça de sermos templos vivos de Deus (1Cor 3).
 
Os profetas insistem que Deus é maior do que todo o universo. Como pode caber em uma casa? (Is 66). Segundo a Bíblia, o templo de Jerusalém não é a casa de Deus e sim o lugar onde é invocado o seu nome (1Rs 8). Deus aceita o templo como necessidade cultural do povo, se as pessoas que o frequentam se comprometem em que o culto se baseie na justiça e na preocupação com os pobres (ver Jeremias 7). Jesus citou esse texto ao expulsar os vendedores do templo de Jerusalém e afirmar: “Vocês fizeram da casa do meu pai um covil de ladrões” (Jo 2,13 ss). As pessoas que teriam visto essa cena não a interpretaram no sentido de que Jesus estivesse zelando pela santidade do templo (interpretação ainda comum nos sermões das nossas Igrejas).
 
Tanto assim que os escribas e doutores da lei perguntaram: “Com que direito ou com que autoridade você faz isso?” E Jesus respondeu: “Podem destruir esse templo e eu construirei outro não feito pela mão humana”. E o evangelho de João acrescenta que ele se referia ao templo do seu corpo ressuscitado (Cf. Jo 2,13 ss).
 
Com essa visão de fé, os primeiros cristãos não tinham templos. Os Atos dos Apóstolos contam que os apóstolos e discípulos iam ao templo de Jerusalém, mas era para orar e não para oferecer sacrifícios que era o próprio do templo.
 
Embora os cristãos tenham, muitas vezes, caído na tentação de sacralizar seus espaços de oração e, hoje, o Cristianismo tenha basílicas e templos imensos e ricos, a parte mais consciente dos cristãos sabe que suas igrejas são igrejas, isso é simples locais para a reunião da assembleia (esse é o sentido original do termo Igreja, assembleia) e não espaços sagrados e reservados a Deus como se fossem sua casa. Hoje, nem as comunidades judaicas pensam em reconstruir o templo. Reúnem-se em sinagogas (casas de reunião).
 
Ao sabermos da inauguração desse novo templo de Salomão, o que podemos pedir a Deus é que outras Igrejas não queiram construir templos para um Deus que não quer santuários de pedra e sim que sejamos nós mesmos sinais vivos de sua presença e vejamos todo o universo como seu templo.
 
Que a construção desse novo templo em São Paulo não sirva para fazer o Brasil regredir de país leigo e pluralista para uma neocristandade estreita que queira dominar a política, não a serviço do povo e sim dos interesses de um grupo religioso.
 
* Marcelo Barros, monge beneditino, é biblista de formação e atualmente coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). É assessor nacional das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-descendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação.
 
Fonte: CONSCIÊNCIA.NET – 05 de agosto de 2014 

 

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