Dom Tomás Balduino

08/05/2014 22:56

Tomás Balduino

Jaime Sautchuk *


A morte do padre Paulo Balduino de Sousa Décio, no último dia 2, foi uma grande perda para Goiás, o Brasil e a Humanidade. Dom Tomás Balduino, como era conhecido, foi um dos mais aguerridos líderes brasileiros da Igreja Católica que fez a opção pelo pobre, por meio da Teologia da Libertação.


Bispo emérito da histórica Cidade de Goiás(GO), onde comandou a diocese por mais de três décadas, Tomás herdou o nome de São Tomáz de Aquino quando ordenou-se padre. A escolha, por si só, já demonstra sua posição em favor de uma igreja popular, defendida por Aquino, em contraposição ao conservador Santo Agostinho.

Foi também seguidor dos ideais de Bartolomeu de Las Casas, seguidor da Ordem dos Dominicanos, que enfrentou a ganância mortífera de seus conterrâneos espanhóis à época do Descobrimento da América. E, como ele, enfrentou os poderosos por todos os recantos por onde andou neste Brasil afora, com destemor.

Tomás Balduíno era filho de classe média na cidade de Posse, em Goiás, onde nasceu, em 31 de dezembro de 1922. Ali viveu sua primeira infância e manteve suas raízes. Mas, aos seis anos de idade mudou-se com a família para Formosa, também em Goiás, onde seu pai foi ser promotor público e, depois, juiz de direito.

Seu senso de justiça vinha de casa, pois. Mas o desprendimento das coisas materiais ele aprendeu na vida, especialmente quando foi para Conceição do Araguaia, no Pará, região de enormes conflitos sociais.

Lá, meteu-se com índios e outros povos da floresta, até depois do advento do regime militar e de suas transamazônicas atrocidades. Os incentivos fiscais e farta distribuição de terras que diziam ser desocupadas levavam grandes empresas agropecuárias para desmatar e matar. Logo, ao aprender a língua dos índios Caiapó e Bacajá, Tomás descobriu que eles não usavam o verbo ter.

Desigualdade tão gritante fez com que ele se tornasse fundador do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e, depois, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), agremiações que presidiu. Além de serem fóruns de debates, essas entidades logo se tornaram canais que fizeram ecoar mundo afora o grito de brasileiros oprimidos.

Seus primeiros estudos foram em seminário dominicano em Juiz de Fora (MG), em colégio marista de Uberaba (MG), com graduação em Filosofia em São Paulo. Dali, seguiu para a França, onde se formou em Teologia. Depois, quando já convivia com índios, cursou Antropologia e Linguística na Universidade de Brasília (UnB).

De 1956 a 1967, atuou em Conceição do Araguaia, primeiro como membro de uma missão dominicana, depois como bispo da prelazia local. Em novembro de 67, foi transferido para a Cidade de Goiás (conhecida como Goiás Velho), onde passou a enfrentar as oligarquias locais, inclusive a dos Caiado.

Ainda com o nome de Vila Boa, a cidade criada por Anhanguera II em 1726, havia sido a capital daquela unidade da federação até a década de 1940. E foi palco de resistência armada à Revolução de 30, que levou Getúlio Vargas ao poder. 

Para se ter uma ideia do tamanho da encrenca, Pedro Ludovico Teixeira, que havia enfrentado os Caiado a bala, foi nomeado governador do Estado por Getúlio. Ele disse que aceitava o cargo, mas desde que a capital fosse em outro lugar. Por isso, foi construída a cidade de Goiânia.

O fato é que ali, na antiga capital, o “bispo comunista”, como Tomás era chamado, cortou um riscado com os coronéis das fazendas e dos quartéis da ditadura. Mesmo assim, desde logo, ajudou a organizar os trabalhadores rurais e a promover vários assentamentos de sem-terras. E sempre deu guarida a perseguidos políticos.

A atividade local, contudo, não o fez abandonar o trabalho em outras partes do país, fosse qual fosse o meio de transporte. Isso, aliás, fez com que um grupo de amigos italianos comprasse e lhe desse um teco-teco Cessna, como forma de ajudar na sua lida. Ele aprendeu a pilotar e, muitas vezes sozinho, perambulava pelos sertões do Cerrado e da Amazônia, mesmo com idade já avançada.

Era um sujeito muito culto e ao mesmo tempo muito simples. E era contundente na defesa de seus princípios, mas ao mesmo tempo doce, afável, elegante no falar e no agir. Não perdia a chance de fazer uma brincadeira, mas sabia ouvir a todos, com a paciência e a ternura da gente da roça. 

Nos rituais católicos, promoveu grandes mudanças. Nas missas, por exemplo, retirou a pompa e dava voz a todos, como se fossem verdadeiras assembleias. Os próprios cânticos não falavam de coisas distantes, etéreas. A realidade de cada comunidade é que deveria ser entoada.

Preferia andar de roupas comuns, mas usava batina quando as circunstâncias exigiam. Agia com a mesma desenvoltura no dia a dia da diocese ou em encontros com autoridades de governos ou do Vaticano, em Roma. Sempre com vontade de fazer mais e mais pela causa dos habitantes dos andares inferiores da sociedade.

Pouco antes de falecer, no Mosteiro de São Judas, em Goiânia, ainda era difícil encontrá-lo quieto. Mesmo debilitado pela quimioterapia que tentava aplacar o câncer que o vinha matando. Só há coisa de dois anos é que ele parou de dirigir o carro que usava, e ainda assim por muita insistência de outros religiosos e amigos.

Foram muitas as homenagens que ele recebeu durante a vida, no Brasil e no mundo inteiro. E agora que partiu deixa a marca de um homem do bem, que muito tem a ensinar às futuras gerações.



 

* Trabalhou nos principais órgãos da imprensa, Estado de SP, Globo, Folha de S.Paulo e Veja. E na imprensa de resistência, Opinião e Movimento. Atuou na BBC de Londres, dirigiu duas emissoras da RBS

 

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