Cristãos fogem à medida que “Estado Islâmico” amplia domínio no Iraque

10/08/2014 00:50
 
 
"Estado Islâmico" toma o controle de cidades cristãs no norte do Iraque, entre elas Qaraqosh e Tal Kayf, gerando nova onda de fugitivos.
ONU fala em tragédia humanitária.
Milhares de cristãos em fuga no norte do Iraque - tragédia humana, segundo a ONU
 
Militantes do "Estado Islâmico" (EI) ampliaram seu domínio em partes do norte do Iraque nesta quinta-feira (07/08), conquistando mais cidades e fortalecendo suas bases perto da região curda.
 
A ofensiva deixou em alerta o governo do país, além de ter causado um êxodo de cristãos, assustados com o avanço dos radicais. "Todas as vilas cristãs estão vazias", disse o arcebispo Joseph Thomas, na cidade curda de Kirkuk.
 
Dezenas de milhares de membros da minoria religiosa yazidi também fugiram do país rumo à Turquia, depois de jihadistas terem tomado o controle de grandes áreas no norte do Iraque.
 
Segundo relatos de testemunhas, os radicais tomaram Qaraqosh, a maior cidade cristã do Iraque, e outras localidades perto de Mossul. "Sei que as localidades de Qaraqosh, Tal Kayf, Bartella e Karamlesh foram esvaziadas de seus habitantes e estão sob controle dos rebeldes", afirmou o arcebispo.
 
Os combatentes do "Estado Islâmico" tomaram posições durante a noite, depois da retirada das forças curdas, explicaram residentes.
 
Qaraqoshé uma localidade totalmente cristã, situada entre Mossul, a principal cidade nas mãos do EI no Iraque, e Erbil, capital da região autônoma do Curdistão. A população residente era de 50 mil habitantes, mas recentemente começou a receber numerosos cristãos expulsos de Mossul.
 
Mais ao norte, Tal Kayf, onde também vivem muitos cristãos, mas também membros da minoria xiita Chabak, foi também esvaziada durante a noite. "Tal Kayf está nas mãos do Estado Islâmico. Eles não encontraram resistência alguma e chegaram ao local logo depois da meia-noite (hora local)", relatou um residente que fugiu da localidade, contactado por telefone em Erbil.
Mapa destacando a região em conflito no Iraque
 
Perseguição religiosa
 
O "Estado Islâmico", grupo radical sunita considerado mais extremo do que a Al Qaeda, vê a maioria xiita e minorias de cristãos e yazidis como "infiéis". Os yazidis, em especial, são vistos como "adoradores do diabo".
 
"Esta é uma tragédia de proporções imensas que tem impacto na vida de centenas de milhares de pessoas", disse David Swanson, porta-voz do Escritório para a Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU. Segundo ele, cerca de 200 mil yazidis fugiram da cidade de Sinjar e estão escondidos nas montanhas da região.
 
Outra fonte da ONU alertou para a situação de crianças nas montanhas – muitas delas sofrendo de desidratação. De acordo com a fonte, pelo menos 40 crianças morreram desde que a ofensiva começou, no fim de semana passado.
 
O ataque de militantes do grupo levou o Iraque à sua pior crise desde a saída dos soldados americanos do país, em 2011.
 
Quando os radicais tomaram o controle de áreas habitadas por minorias, os cristãos foram obrigados a se converter, pagar uma taxa ou deixarem suas casas. Aqueles que não obedecessem, enfrentariam o risco de serem executados.
 
"A maioria dos deslocados está vivendo ao relento e pode morrer por causa do calor intenso e por causa da falta de água e comida", disse o arcebispo caldeu Louis Raphael Sako. "É um desastre humanitário."
 
Avanço
 
De acordo com fontes turcas, centenas de yazidis chegaram ao país depois de serem expulsos do Iraque por militantes do "Estado Islâmico".
 
Um funcionário do Ministério do Exterior da Turquia descreveu a fuga como uma tragédia humana. "Não é possível para a Turquia permanecer indiferente diante disso. Nós cumpriremos nossa responsabilidade."
 
Antes da ocupação americana no Iraque, em 2003, havia pelo menos 1,2 milhão de cristãos no país. O número teria sido reduzido para cerca de 500 mil atualmente.
 
Em sua conta no Twitter, os militantes disseram ter tomado o controle de 15 cidades, além da represa de Mossul, no rio Tigre, e uma base militar.
 
Além de representar a pior ameaça para a integridade do Iraque desde a queda de Saddam Hussein, em 2003, o avanço dos militantes preocupa a região como um todo, que teme que outros radicais juntem-se à campanha do "Estado Islâmico".
 
NOTA:
 
Quem são os yazidis?
Os yazidis são membros de uma das menores e mais incompreendidas religiões do Iraque - e por isso já foram perseguidos outras vezes. Em 2007, eles foram alvo do maior atentado suicida na história moderna do Iraque, em que 800 pessoas foram mortas.
De acordo com reportagem da The Economist, a religão dos yazidis combina elementos do zoroastrismo com Sufi Islã e crenças que remontam à antiga Mesopotâmia.
Eles acreditam que Deus e 7 anjos protegem o mundo. Um deles, chamado Malak Tawous - que é representado na Terra na forma de um pavão - foi expulso do paraíso por ter se recusado a curvar-se para Adão.
Para os yazidis isso é considerado um sinal de bondade, mas os muçulmanos o enxergam como um anjo caído e enxergam os yazidis como adoradores do diabo. 
Além disso, os yazidis acreditam na reencarnação, o que faz com que o entedimento com os islâmicos seja ainda mais difícil. 
A religião tem um sistema de castas rigoroso, que determina quem pode casar com quem dentro da comunidade. Casar fora da comunidade é proibido.
Atualmente, existem cerca de 600 mil yazidis no mundo. A maioria está concentrada no Iraque, Irã, Turquia e Síria
 

Fonte: Deutsche Welle – Notícias – Mundo – 07/08/2014

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