Colaboração do Valdemar Reis

18/04/2014 23:32

Valdemar nos encaminhou esse belo texto de Moacyr Scliar:

 Pequenas mortes pequenas ressurreições

A Semana Santa lembra a paixão e a morte de Jesus, mas termina evocando a ressurreição: um final glorioso, o final que gostaríamos que coroasse o roteiro de nossas vidas, assegurando-nos que tudo termina bem. Mas sabemos que isso não é possível. A morte é garantida; a ressurreição, exceto para os crentes, é uma impossibilidade. De qualquer modo, e muito guardadas as proporções, podemos, todos nós crentes ou descrentes pensar em nossas existências como uma sucessão de pequenas mortes, seguidas de pequenas ressurreições. Existem pequenas mortes numa amizade que termina, num empreendimento fracassado, no desaparecimento de uma pessoa querida; e existem pequenas ressurreições quando, e muitas vezes para nossa surpresa, constatamos que, apesar de tudo, a vida continua. O que, diga-se de passagem, nem sempre é bem recebido por todas as pessoas; entre os sobreviventes do Holocausto não eram poucos os que se envergonhavam de não ter morrido, como tantos outros, nos campos de concentração, e passavam a sofrer da survivor guilt, a culpa do sobrevivente.
De qualquer modo todos temos experiências a contar nesta área. Particularmente, vivi uma situação que me colocou muito próximo ao óbito: um grave acidente de automóvel que resultou em múltiplas lesões e uma hospitalização prolongada no Pavilhão Pereira Filho da Santa Casa. Lá vivi aquilo que poderia chamar de mini-ressurreição. Durante muito tempo fiquei acamado, sem condições de me levantar. Aquele leito hospitalar foi adquirindo para mim uma conotação simbólica e ambígua. De um lado significava o repouso, a recuperação; de outro, porém, representava a imobilidade que, ao fim e ao cabo, caracteriza a morte. Eu precisava levantar; precisava caminhar. Caminhar, para mim, significava ir em busca da vida e da saúde. Claro que atrás disso havia um raciocínio médico evocando, ainda que de forma confusa, o benefício do exercício. Mas não era só isso. Era o desafio. Era o vital desafio.
Levantar da cama, para quem tinha várias fraturas de costelas, era um suplício. Mas enfrentei a dor, enfrentei o desconforto. Um dia, com muito trabalho e sofrimento, saí sozinho do leito, abri a porta do quarto e pus-me a caminhar pelo corredor. Com aquela característica bata de hospital (que nunca esconde por completo a nudez) eu deveria ser uma figura ridícula. Mas eu não estava numa passarela de desfile de moda. Não me importava que pessoas me olhassem, intrigadas. O que eu queria era apenas dar um passo, depois outro, e depois mais outro. Nisso, aliás, eu não era um caso único. Quem vai a hospitais sabe que muitas vezes a gente encontra convalescentes andando pelos corredores, às vezes sozinhos, às vezes amparados por familiares ou pelo pessoal da enfermagem. O corredor do hospital é assim uma região intermediária. Não é ainda a rua, não é a cidade barulhenta, não é o lugar onde estão as pessoas sadias, ou quase; mas também já não é o recinto da enfermidade. A separação é tênue; não temos aqui a pedra que guarnecia a entrada do túmulo de Cristo, o marco separando a vida da morte; a pedra que, afastada, anunciou a ressurreição. Mas era algo equivalente.
A gente retorna, portanto. Retornamos mudados? Certamente. Mas é uma mudança complexa, pela qual às vezes nos sentimos melhor, e às vezes nos sentimos pior. É apenas uma pequena ressurreição. Mas para as pequenas criaturas que em geral somos, está mais que bom. Feliz Páscoa.

 

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