LAUDATO SI' - REFLEXÃO

 

A seguir uma reflexão elaborada pelo dolega AFONSO DE SOUZA CAVALCANTE (Jandaia)

 
 

LEITURA REFLEXIVA SOBRE A CARTA LAUDATO SI (LOUVADO SEJAS) do Papa Francisco, com observação sobre o Estatuto da Cidade (LEI No 10.257, DE 10 DE JULHO DE 2001)

                                                 Afonso de Sousa Cavalcanti

 

Carta Encíclica Laudato Si’ do Santo Padre Francisco Sobre o Cuidado da Casa Comum

"Deus não é o autor do mal, porque é o autor de todo o bem. O mal é apenas uma deficiência, uma privação do ser, decorrente do uso equivocado de um bem - o livre-arbítrio" (Santo Agostinho)

Laudato si' (português: Louvado sejas; subtítulo: "Sobre o Cuidado da Casa Comum") é uma encíclica do Papa Francisco, na qual o papa critica o consumismo e o desenvolvimento irresponsável e faz um apelo à mudança e à unificação global das ações para combater a degradação ambiental e as alterações climáticas. A encíclica foi publicada oficialmente em 18 de junho de 2015, mediante grande interesse das comunidades religiosas, ambientais e científicas internacionais, dos líderes empresariais e dos meios de comunicação social. Este documento é a segunda encíclica publicada pelo papa Francisco, após a publicação de Lumen fidei em 2013. Uma vez que esta última é na sua maioria um trabalho de Bento XVI, Laudato Si é vista como a primeira encíclica inteiramente da responsabilidade de Francisco. As afirmações da encíclica sobre as alterações climáticas estão de acordo com consenso científico sobre as alterações climáticas.

 

Um olhar por inteiro

 

«Que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão crescendo? Este interrogativo é o âmago da Laudato si’, a esperada Encíclica do Papa Francisco sobre o cuidado da casa comum.

O nome da Encíclica foi inspirado na invocação de São Francisco «Louvado sejas, meu Senhor», que no Cântico das criaturas recorda que a terra, a nossa casa comum, « se pode comparar ora a uma irmã, com quem partilhamos a existência, ora a uma boa mãe, que nos acolhe nos seus braços». Nós mesmos «somos terra (cfr Gen 2,7). O nosso corpo é constituído pelos elementos do planeta; o seu ar permite-nos respirar e a sua água vivifica-nos e restaura-nos».

 

Agora, esta terra maltratada e saqueada se lamenta e os seus gemidos se unem aos de todos os abandonados do mundo. O Papa Francisco reconhece que se nota « uma crescente sensibilidade relativamente ao meio ambiente e ao cuidado da natureza, e cresce uma sincera e sentida preocupação pelo que está a acontecer ao nosso planeta, legitimando um olhar de esperança que permeia toda a Encíclica e envia a todos uma mensagem clara e repleta de esperança: «A humanidade possui ainda a capacidade de colaborar na construção da nossa casa comum”.

      Nesta perspectiva, o Papa Francisco propõe (cap. 5) empreender em todos os níveis da vida social, econômica e política um diálogo honesto, que estruture processos de decisão transparentes, e recorda (cap. 6) que nenhum projeto pode ser eficaz se não for animado por uma consciência formada e responsável, sugerindo ideias para crescer nesta direção em nível educativo, espiritual, eclesial, político e teológico. Primeiro

 

Primeiro Capítulo – O que está a acontecer à nossa casa

O capítulo apresenta as mais recentes aquisições científicas em matéria ambiental, nos «vários aspectos da atual crise ecológica».

*”As mudanças climáticas são um problema global com graves implicações ambientais, sociais, econômicas, distributivas e políticas, constituindo atualmente um dos principais desafios para a humanidade». O clima é um bem comum, um bem de todos e para todos, o impacto mais pesado da sua alteração recai sobre os mais pobres, mas muitos «daqueles que detêm mais recursos e poder económico ou político parecem concentrar-se, sobretudo, em mascarar os problemas ou ocultar os seus sintomas »: «a falta de reações diante destes dramas dos nossos irmãos e irmãs é um sinal da perda do sentido de responsabilidade pelos nossos semelhantes, sobre o qual se funda toda a sociedade civil “.

**A questão da água: O Pontífice afirma claramente que “o acesso à água potável e segura é um direito humano essencial, fundamental e universal, porque determina a sobrevivência das pessoas e é condição para o exercício dos outros direitos humanos”. Privar os pobres do acesso à água significa ”negar-lhes o direito à vida radicado na sua dignidade inalienável”.

***A preservação da biodiversidade: “Anualmente, desaparecem milhares de espécies vegetais e animais que já não poderemos conhecer mais, que os nossos filhos não poderão ver, perdidas para sempre”. Nesta perspectiva, “são louváveis os esforços de cientistas e técnicos que procuram dar solução aos problemas criados pelo ser humano”, mas a intervenção humana, quando se coloca a serviço da finança e do consumismo, “faz com que esta terra onde vivemos se torne realmente menos rica e bela, cada vez mais limitada e cinzenta”.

****A dívida ecológica: no âmbito de uma ética das relações internacionais, a Encíclica indica que existe «uma verdadeira “dívida ecológica”, sobretudo, do Norte em relação ao Sul do mundo. Diante das mudanças climáticas, existem responsabilidades diversas, e as dos países desenvolvidos são maiores.

O Papa Francisco se mostra profundamente impressionado com a fraqueza das reações» diante dos dramas de tantas pessoas e populações. Embora não faltem exemplos positivos, sinaliza um certo torpor e uma alegre irresponsabilidade. Faltam uma cultura adequada e a disponibilidade em mudar estilos de vida, produção e consumo, enquanto é urgente «criar um sistema normativo que inclua limites invioláveis e assegure a proteção dos ecossistemas.

 

Segundo capítulo – O Evangelho da criação

Para enfrentar as problemáticas ilustradas no capítulo precedente, o Papa Francisco relê as narrações da Bíblia, oferece uma visão global oriunda da tradição judaico-cristã e articula a responsabilidade (90) do ser humano diante da criação, o elo íntimo entre todas as criaturas e o fato de que o meio ambiente é um bem coletivo, patrimônio de toda a humanidade e responsabilidade de todos.

Na Bíblia, “o Deus que liberta e salva é o mesmo que criou o universo. [...] n’Ele se conjugam o carinho e a força” (73). A narração da criação é central para refletir sobre a relação entre o ser humano e as outras criaturas e sobre como o pecado rompe o equilíbrio de toda a criação no seu conjunto. Por isso, mesmo que nós cristãos, algumas vezes interpretamos de forma incorreta as Escrituras, hoje devemos decididamente rejeitar que, do fato de ser criados à imagem de Deus e do mandato de dominar a terra, se deduza um domínio absoluto sobre as outras criaturas». Ao ser humano cabe a responsabilidade de “cultivar e guardar” o jardim do mundo (cfr Gen 2,15), sabendo que “o fim último das restantes criaturas não somos nós. Mas todas avançam, juntamente conosco e através de nós, para a meta comum, que é Deus.

*Que o ser humano não seja o dono do universo, não significa igualar todos os seres vivos e tirar ao ser humano aquele seu valor peculiar que o caracteriza; também não requer uma divinização da terra, que nos privaria da nossa vocação de colaborar com ela e proteger a sua fragilidade. Precisa haver um autêntico sentimento de união íntima com os outros seres da natureza, mas ao mesmo tempo deve haver no coração ternura, compaixão e preocupação pelos seres humanos. Necessita-se da consciência de uma comunhão universal: “criados pelo mesmo Pai, estamos unidos por laços invisíveis e formamos uma espécie de família universal, que nos impele a um respeito sagrado, amoroso e humilde.

 

**O coração da revelação cristã conclui o Capítulo: “Jesus terreno” com a sua relação tão concreta e amorosa com o mundo, “ressuscitado e glorioso”, está presente em toda a criação com o seu domínio universal.

 

*** A luz que a fé oferece. A Igreja Católica está aberta ao diálogo com o pensamento filosófico, o que lhe permite produzir várias sínteses entre fé e razão. No que diz respeito às questões sociais, pode-se constatar isto mesmo no desenvolvimento da doutrina social da Igreja, chamada a enriquecer-se cada vez mais a partir dos novos desafios.

Os cristãos, em particular, advertem que a sua tarefa no seio da criação e os seus deveres em relação à natureza e ao Criador fazem parte da sua fé. Por isso é bom, para a humanidade e para o mundo, que nós, crentes, conheçamos melhor os compromissos ecológicos que brotam das nossas convicções.

 

****A sabedoria das narrações bíblicas. Na primeira narração da obra criadora, no livro do Génesis, inclui a criação da humanidade. Depois da criação do homem e da mulher, diz-se que “Deus, vendo a sua obra, considerou-a muito boa” (Gn 1, 31). A Bíblia ensina que cada ser humano é criado por amor, feito à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1, 26). São João Paulo II recordou que o amor muito especial que o Criador tem por cada ser humano “confere-lhe uma dignidade infinita”. O Criador pode dizer a cada um de nós: “Antes de te haver formado no ventre materno, Eu já te conhecia” (Jr 1, 5). Cada um de nós é querido, cada um de nós é amado, cada um é necessário.

 

A existência humana se baseia sobre três relações fundamentais: as relações com Deus, com o próximo e com a terra. Segundo a Bíblia, estas três relações vitais romperam-se não só exteriormente, mas também dentro de nós. Esta ruptura é o pecado. Este fato distorceu também a natureza do mandato de “dominar” a terra (cf. Gn 1, 28) e de a “cultivar e guardar” (cf. Gn 2, 15). O homem vive em conflito com a natureza (cf. Gn 3, 17-19). Por isso, é significativo que a harmonia vivida por São Francisco de Assis com todas as criaturas tenha sido interpretada como uma sanação daquela ruptura.

Não somos Deus. O dominar a terra por nós, não pode ser um domínio absoluto. É importante ler os textos bíblicos no seu contexto, com uma justa hermenêutica, e lembrar que nos convidam a “cultivar e guardar” o jardim do mundo (cf. Gn 2, 15). Enquanto “cultivar” quer dizer lavrar ou trabalhar um terreno, “guardar” significa proteger, cuidar, preservar, velar. Isto implica uma relação de reciprocidade responsável entre o ser humano e a natureza. Em última análise, ao Senhor pertence a terra (Sl 24/23, 1), a Ele pertence a terra e tudo o que nela existe (Dt 10, 14). Por isso, Deus proíbe-nos toda a pretensão de posse absoluta: “Nenhuma terra será vendida definitivamente, porque a terra pertence-Me, e vós sois apenas estrangeiros e meus hóspedes” (Lv 25, 23).

Consequentemente, a legislação bíblica detém-se a propor ao ser humano várias normas relativas não só às outras pessoas, mas também aos restantes seres vivos: “Se vires o jumento do teu irmão ou o seu boi caídos no caminho, não te desvies deles, mas ajuda-os a levantarem-se. (...) Se encontrares no caminho, em cima de uma árvore ou no chão, um ninho de pássaros com filhotes, ou ovos cobertos pela mãe, não apanharás a mãe com a ninhada” (Dt 22, 4.6). Nesta linha, o descanso do sétimo dia não é proposto só para o ser humano, mas “para que descansem o teu boi e o teu jumento” (Ex 23, 12). Assim nos damos conta de que a Bíblia não dá lugar a um antropocentrismo despótico, que se desinteressa das outras criaturas.

O Catecismo põe em questão, de forma muito direta e insistente, um antropocentrismo desordenado: “Cada criatura possui a sua bondade e perfeição próprias. (...) As diferentes criaturas, queridas pelo seu próprio ser, refletem, cada qual a seu modo, uma centelha da sabedoria e da bondade infinitas de Deus. É por isso que o homem deve respeitar a bondade própria de cada criatura, para evitar o uso desordenado das coisas”.

 

A inveja levou Caim a cometer a injustiça extrema contra o seu irmão. Isto, por sua vez, provocou uma ruptura da relação entre Caim e Deus e entre Caim e a terra, da qual foi exilado. A voz do sangue do teu irmão clama da terra até Mim. De futuro, serás amaldiçoado pela terra (…). Serás vagabundo e fugitivo sobre a terra» (Gn 4, 9-12). Assim nos ensina a narração de Noé, quando Deus ameaça acabar com a humanidade pela sua persistente incapacidade de viver à altura das exigências da justiça e da paz: “O fim de toda a humanidade chegou diante de mim, pois ela encheu a terra de violência” (Gn 6, 13). O cuidado autêntico da nossa própria vida e das nossas relações com a natureza é inseparável da fraternidade, da justiça e da fidelidade aos outros.

Os Salmos convidam, frequentemente, o ser humano a louvar a Deus criador: “Estendeu a terra sobre as águas, porque o seu amor é eterno” (Sl 136/135, 6). E convidam também as outras criaturas a louvá-Lo: “Louvai-O, sol e lua; louvai-O, estrelas luminosas! Louvai-O, alturas dos céus e águas que estais acima dos céus! Louvem todos o nome do Senhor, porque Ele deu uma ordem e tudo foi criado” (Sl 148, 3-5).

Os escritos dos profetas convidam a recuperar forças. O poder infinito de Deus não nos leva a escapar da sua ternura paterna, porque n’Ele se conjugam o carinho e a força. Na Bíblia, o Deus que liberta e salva é o mesmo que criou o universo, e estes dois modos de agir divino estão íntima e inseparavelmente ligados: “O Senhor é um Deus eterno, que criou os confins da terra. Não se cansa nem perde as forças. É insondável a sua sabedoria. Ele dá forças ao cansado e enche de vigor o fraco” (Is 40, 28b-29).

A melhor maneira de colocar o ser humano no seu lugar é acabar com a sua pretensão de ser dominador absoluto da terra, é voltar a propor a figura de um Pai criador e único dono do mundo; caso contrário, o ser humano tenderá sempre a querer impor à realidade as suas próprias leis e interesses.

 

***** O mistério do universo. A natureza entende-se habitualmente como um sistema que se analisa, compreende e gere, mas a criação só se pode conceber como um dom que vem das mãos abertas do Pai de todos, como uma realidade iluminada pelo amor que nos chama a uma comunhão universal.

O mundo procede, não do caos nem do acaso, mas duma decisão, o que o exalta o Criador ainda mais. A criação pertence à ordem do amor. O amor de Deus é a razão fundamental de toda a criação: “Tu amas tudo quanto existe e não detestas nada do que fizeste; pois, se odiasses alguma coisa, não a terias criado” (Sab 11, 24). Cada criatura é objeto da ternura do Pai que lhe atribui um lugar no mundo.

A fé permite-nos interpretar o significado e a beleza misteriosa do que acontece. A liberdade humana pode prestar a sua contribuição inteligente para uma evolução positiva, como pode também acrescentar novos males, novas causas de sofrimento e verdadeiros atrasos.

O Espírito de Deus encheu o universo de potencialidades que permitem que, do próprio seio das coisas, possa brotar sempre algo de novo: “A natureza nada mais é do que a razão de certa arte – concretamente a arte divina – inscrita nas coisas, pela qual as próprias coisas se movem para um fim determinado”.

Os outros seres vivos não devem ser considerados como meros objetos submetidos ao domínio arbitrário do ser humano. Quando se propõe uma visão da natureza unicamente como objeto de lucro e interesse, isso comporta graves consequências também para a sociedade. “Sabeis que os chefes das nações as governam como seus senhores, e que os grandes exercem sobre elas o seu poder. Não seja assim entre vós. Pelo contrário, quem entre vós quiser fazer-se grande, seja o vosso servo” (Mt 20, 25-26).

 

****** A mensagem de cada criatura na harmonia de toda a criação.

O solo, a água, as montanhas: tudo é carícia de Deus. A história da própria amizade com Deus desenrola-se sempre num espaço geográfico que se torna um sinal muito pessoal, e cada um de nós guarda na memória lugares cuja lembrança nos faz muito bem.

A contemplação da criação permite-nos descobrir qualquer ensinamento que Deus nos quer transmitir através de cada coisa, porque, “para o crente, contemplar a criação significa também escutar uma mensagem, ouvir uma voz paradoxal e silenciosa”. São Tomás de Aquino sublinhava, sabiamente, que a multiplicidade e a variedade “provêm da intenção do primeiro agente”, o Qual quis que “o que falta a cada coisa, para representar a bondade divina, seja suprido pelas outras”,

São Francisco de Assis louvou a Deus assim:

 

“Louvado sejas, meu Senhor,

com todas as tuas criaturas,

especialmente o meu senhor irmão sol,

o qual faz o dia e por ele nos alumia.

E ele é belo e radiante com grande esplendor:

de Ti, Altíssimo, nos dá ele a imagem.

Louvado sejas, meu Senhor,

pela irmã lua e pelas estrelas,

que no céu formaste claras, preciosas e belas.

Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão vento

pelo ar, pela nuvem, pelo sereno, e todo o tempo,

com o qual, às tuas criaturas, dás o sustento.

Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã água,

que é tão útil e humilde, e preciosa e casta.

Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão fogo,

pelo qual iluminas a noite:

ele é belo e alegre, vigoroso e forte”.[64]

 

******* Uma comunhão universal.

As criaturas deste mundo não podem ser consideradas um bem sem dono: “Todas são tuas, ó Senhor, que amas a vida»”(Sab 11, 26). Isto gera a convicção de que nós e todos os seres do universo, sendo criados pelo mesmo Pai, estamos unidos por laços invisíveis e formamos uma espécie de família universal, uma comunhão sublime que nos impele a um respeito sagrado, amoroso e humilde.

Não pode ser autêntico um sentimento de união íntima com os outros seres da natureza, se ao mesmo tempo não houver no coração ternura, compaixão e preocupação pelos seres humanos. É evidente a incoerência de quem luta contra o tráfico de animais em risco de extinção, mas fica completamente indiferente perante o tráfico de pessoas, desinteressa-se dos pobres ou procura destruir outro ser humano de que não gosta. Isto compromete o sentido da luta pelo meio ambiente.

O coração é um só, e a própria miséria que leva a maltratar um animal não tarda a manifestar-se na relação com as outras pessoas. Todo o encarniçamento contra qualquer criatura “é contrário à dignidade humana”.

 

O destino comum dos bens. Hoje, crentes e não-crentes estão de acordo que a terra é, essencialmente, uma herança comum, cujos frutos devem beneficiar a todos. Para os crentes, isto torna-se uma questão de fidelidade ao Criador, porque Deus criou o mundo para todos.

O rico e o pobre têm igual dignidade, porque “quem os fez a ambos foi o Senhor” (Pr 22, 2); “faz com que o sol se levante sobre os bons e os maus” (Mt 5, 45). Isto significa que, além do título de propriedade, o camponês deve contar com meios de formação técnica, empréstimos, seguros e acesso ao mercado».

O meio ambiente é um bem coletivo, património de toda a humanidade e responsabilidade de todos. Quem possui uma parte é apenas para a administrar em benefício de todos.

 

******** O olhar de Jesus. Jesus retoma a fé bíblica no Deus criador e destaca um dado fundamental: Deus é Pai (cf. Mt 11, 25). Jesus convidava os discípulos a reconhecerem a relação paterna que Deus tem com todas as criaturas e recordava-lhes, com comovente ternura, como cada uma delas era importante aos olhos d’Ele: “Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam nem recolhem em celeiros; e o vosso Pai celeste alimenta-as” (Mt 6, 26).

Jesus vivia em plena harmonia com a criação, com grande maravilha dos outros: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?” (Mt 8, 27). É digno de nota que a maior parte da sua existência terrena tenha sido consagrada a esta tarefa, levando uma vida simples que não despertava maravilha alguma: “Não é Ele o carpinteiro, o filho de Maria?” (Mc 6, 3). Assim santificou o trabalho, atribuindo-lhe um valor peculiar para o nosso amadurecimento.

 

Terceiro capítulo – A raiz humana da crise ecológica

Este capítulo apresenta uma análise da situação atual, “de modo a individuar não apenas os seus sintomas, mas também as causas mais profundas”, em um diálogo com a filosofia e as ciências humanas.

Um primeiro fulcro do capítulo são as reflexões sobre a tecnologia: é reconhecida, com gratidão, a sua contribuição para o melhoramento das condições de vida; todavia ela oferece “àqueles que detêm o conhecimento e, sobretudo, o poder econômico para o desfrutar, um domínio impressionante sobre o conjunto do gênero humano e do mundo inteiro”. São precisamente as lógicas de domínio tecnocrático que levam a destruir a natureza e explorar as pessoas e as populações mais vulneráveis. “O paradigma tecnocrático tende a exercer o seu domínio também sobre a economia e a política”, impedindo reconhecer que “o mercado, por si mesmo [...] não garante o desenvolvimento humano integral nem a inclusão social”.

Na raiz se diagnostica na época moderna um excesso de antropocentrismo: o ser humano não reconhece mais sua correta posição em relação ao mundo e assume uma posição autorreferencial, centrada exclusivamente em si mesmo e no próprio poder. Deriva então uma lógica do “descartável” que justifica todo tipo de descarte, ambiental ou humano que seja, que trata o outro e a natureza como um simples objeto e conduz a uma miríade de formas de dominação. É a lógica que leva a explorar as crianças, a abandonar os idosos, a reduzir os outros à escravidão, a superestimar a capacidade do mercado de se autorregular, a praticar o tráfico de seres humanos, o comércio de peles de animais em risco de extinção e de “diamantes ensanguentados”. É a mesma lógica de muitas máfias, dos traficantes de órgãos, do tráfico de drogas e do descarte de crianças porque não correspondem ao desejo de seus pais.

Nesta luz, a encíclica aborda duas questões cruciais para o mundo de hoje. !.Antes de tudo, o trabalho: “Em qualquer abordagem de ecologia integral que não exclua o ser humano, é indispensável incluir o valor do trabalho”, bem como “renunciar a investir nas pessoas para se obter maior receita imediata é um péssimo negócio para a sociedade”. 2. A segunda diz respeito aos limites do progresso científico, com clara referência às pesquisas e descobertas, que são “uma questão de carácter complexo”. Embora “nalgumas regiões, a sua utilização ter produzido um crescimento económico que contribuiu para resolver determinados problemas, há dificuldades importantes que não devem ser minimizadas”, a partir da “concentração de terras produtivas nas mãos de poucos”. O Papa Francisco pensa em particular nos pequenos produtores e trabalhadores rurais, na biodiversidade, na rede de ecossistemas. É, portanto, preciso assegurar “um debate científico e social que seja responsável e amplo, capaz de considerar toda a informação disponível e chamar as coisas pelo seu nome”, a partir de “linhas de pesquisa autónomas e interdisciplinares que possam trazer novas luzes”.

 

Quarto capítulo – Uma ecologia integral

O coração da proposta da Encíclica é a ecologia integral como novo paradigma de justiça; uma ecologia “que integre o lugar específico que o ser humano ocupa neste mundo e as suas relações com a realidade que o circunda”. De fato, “isto impede-nos de considerar a natureza como algo separado de nós ou como uma mera moldura da nossa vida”. Isto vale, por mais que vivemos em diferentes campos: na economia e na política, nas diversas culturas, em particular modo nas mais ameaçadas, e até mesmo em cada momento da nossa vida cotidiana.

A perspectiva integral põe em jogo também uma ecologia das instituições: “Se tudo está relacionado, também o estado de saúde das instituições de uma sociedade tem consequências no ambiente e na qualidade de vida humana: “toda a lesão da solidariedade e da amizade cívica provoca danos ambientais”. Com muitos exemplos concretos, o Papa Francisco reafirma o seu pensamento: há uma ligação entre questões ambientais e questões sociais e humanas que nunca pode ser rompida. Assim, “a análise dos problemas ambientais é inseparável da análise dos contextos humanos, familiares, laborais, urbanos, e da relação de cada pessoa consigo mesma”. Não há duas crises separadas, uma ambiental e outra social, mas uma única e complexa crise sócio-ambiental.

Esta ecologia integral “é inseparável da noção de bem comum, a ser entendida, no entanto, de modo concreto: no contexto de hoje, no qual “há tantas desigualdades e são cada vez mais numerosas as pessoas descartadas, privadas dos direitos humanos fundamentais”. Comprometer-se pelo bem comum significa fazer escolhas solidárias com base em “uma opção preferencial pelos mais pobres” (158). Esta é também a melhor maneira para deixar um mundo sustentável às gerações futuras, não com proclamas, mas através de um compromisso de cuidado dos pobres de hoje, como já havia sublinhado Bento XVI: “para além da leal solidariedade entre as gerações, há que reafirmar a urgente necessidade moral de uma renovada solidariedade entre os indivíduos da mesma geração”.

A ecologia integral envolve também a vida diária, para a qual a Encíclica reserva uma atenção específica em particular em ambiente urbano. O ser humano tem uma grande capacidade de adaptação e «admirável é a criatividade e generosidade de pessoas e grupos que são capazes de dar a volta às limitações do ambiente, [...] aprendendo a orientar a sua existência no meio da desordem e precariedade”. No entanto, um desenvolvimento autêntico pressupõe um melhoramento integral na qualidade da vida humana: espaços públicos, moradias, transportes, geração de empregos etc. Também “o nosso corpo nos coloca em uma relação direta com o meio ambiente e com os outros seres vivos. A aceitação do próprio corpo como dom de Deus é necessária para acolher e aceitar o mundo inteiro como dom do Pai e casa comum; pelo contrário, uma lógica de domínio sobre o próprio corpo transforma-se numa lógica, por vezes subtil, de domínio sobre a criação”.

 

Quinto capítulo – Algumas linhas de orientação e ação

Este capítulo aborda a pergunta sobre o que podemos e devemos fazer? As análises não podem ser suficientes: são necessárias propostas “de diálogo e de ação que envolvam, seja cada um de nós, seja a política internacional”, e “que nos ajudem a sair da espiral de autodestruição onde estamos a afundar”. Para o Papa Francisco é imprescindível que a construção de caminhos concretos não seja enfrentada de modo ideológico, superficial ou reducionista. Por isso, é indispensável o diálogo, termo presente no título de cada seção deste capítulo: “Há discussões sobre questões relativas ao meio ambiente, onde é difícil chegar a um consenso. [...] a Igreja não pretende definir as questões científicas, nem substituir-se à política, mas [eu] convido a um debate honesto e transparente para que as necessidades particulares ou as ideologias não lesem o bem comum”.

Com esta base o Papa Francisco não tem medo de fazer um julgamento severo sobre as dinâmicas internacionais recentes: “as cimeiras mundiais (vários encontros) sobre o meio ambiente dos últimos anos não corresponderam às expectativas, porque não alcançaram, por falta de decisão política, acordos ambientais globais realmente significativos e eficazes”. E se pergunta: “Para que se quer preservar hoje um poder que será recordado pela sua incapacidade de intervir quando era urgente e necessário fazê-lo?” Servem, em vez disso, como os Pontífices repetiram várias vezes, a partir da Pacem in Terris, formas e instrumentos eficazes de governança global: “precisamos de um acordo sobre os regimes de governança para toda a gama dos chamados bens comuns globais”, já que "a proteção ambiental não pode ser assegurada apenas com base no cálculo financeiro de custos e benefícios. O ambiente é um dos bens que os mecanismos de mercado não estão aptos a defender ou a promover adequadamente", que retoma as palavras do Compêndio da Doutrina Social da Igreja).

Sempre neste capítulo, o Papa Francisco insiste sobre o desenvolvimento de processos de decisão honestos e transparentes, para poder “discernir” quais políticas e iniciativas empresariais poderão levar “a um desenvolvimento verdadeiramente integral”. Em particular, o estudo do impacto ambiental de um novo projeto “requer processos políticos transparentes e sujeitos a diálogo, enquanto a corrupção, que esconde o verdadeiro impacto ambiental dum projeto em troca de favores, frequentemente leva a acordos ambíguos que fogem ao dever de informar e a um debate profundo”.

Particularmente significativo é o apelo dirigido àqueles que detêm cargos políticos, para que se distanciem da lógica “eficientista e imediatista” hoje dominante: “se ele tiver a coragem de o fazer, poderá novamente reconhecer a dignidade que Deus lhe deu como pessoa e deixará, depois da sua passagem por esta história, um testemunho de generosa responsabilidade”.

 

Sexto capítulo - Educação e espiritualidade ecológicas

O último capítulo vai ao cerne da conversão ecológica à qual a Encíclica convida. As raízes da crise cultural agem em profundidade e não é fácil reformular hábitos e comportamentos. A educação e a formação continuam sendo desafios centrais: “toda mudança tem necessidade de motivações e dum caminho educativo”; estão envolvidos todos os ambientes educacionais, por primeiro “a escola, a família, os meios de comunicação, a catequese”.

O início é apostar “em uma mudança nos estilos de vida”, que também abre à possibilidade de “exercer uma pressão salutar sobre quantos detêm o poder político, económico e social”. Isso é o que acontece quando as escolhas dos consumidores conseguem “a mudança do comportamento das empresas, forçando-as a reconsiderar o impacto ambiental e os modelos de produção”. Não se pode subestimar a importância de percursos de educação ambiental capazes de incidir sobre gestos e hábitos cotidianos, da redução do consumo de água, à diferenciação do lixo até apagar as luzes desnecessárias: “Uma ecologia integral é feita também de simples gestos quotidianos, pelos quais quebramos a lógica da violência, da exploração, do egoísmo”. Tudo isto será mais fácil a partir de um olhar contemplativo que vem da fé: O crente contempla o mundo, não como alguém que está fora dele, mas dentro, reconhecendo os laços com que o Pai nos uniu a todos os seres. Além disso a conversão ecológica, fazendo crescer as peculiares capacidades que Deus deu a cada crente, leva-o a desenvolver a sua criatividade e entusiasmo.

Retorna à linha proposta na Evangelii Gaudium: “A sobriedade, vivida livre e conscientemente, é libertadora”, bem como “A felicidade exige saber limitar algumas necessidades que nos entorpecem, permanecendo assim disponíveis para as muitas possibilidades que a vida oferece”; desta forma torna-se possível voltar a sentir que precisamos uns dos outros, que temos uma responsabilidade para com os outros e o mundo, que vale a pena ser bons e honestos. Os santos acompanham-nos neste caminho. São Francisco, muitas vezes mencionado, é “o exemplo por excelência do cuidado pelo que é frágil e por uma ecologia integral, vivida com alegria”, modelo de como são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior. Mas a encíclica recorda também São Bento, Santa Teresa de Lisieux e o Beato Charles de Foucauld.

Após a Laudato si, o exame de consciência, o instrumento que a Igreja sempre recomendou para orientar a própria vida à luz da relação com o Senhor, deverá incluir uma nova dimensão, considerando não apenas como se vive a comunhão com Deus, com os outros, consigo mesmo, mas também com todas as criaturas e a natureza.

 

A Lei n. 10.257, de 10/7/2001, o Estatuto da Cidade

O papa Francisco deixa claro que a ecologia integral passa  pelos cuidados das nossas cidades. As cidades são vilãs da poluição, por isso devemos pensá-las e agir por elas, nas duas quatro dimensões: a moradia (lugar da família), a circulação (ir e vir), o trabalho (emprego) e o lazer (descanso).

 

Papa Francisco. Carta Encíclica Laudato Si – sobre o cuidado da casa comum. São Paulo: Paulinas, 2015.

Fonte: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-la... Roberto F. de Macedo, Advogado, Pesquisador e Entusiasta do Direito; Graduado em Direito; Pós-graduado em Gestão e Educação Ambiental; Cursando Pós-graduação em Direito Processual Civil: Novo CPC; Contato através do E-mail: roberto_fmacedo@hotmail.com.

LEI No 10.257, DE 10 DE JULHO DE 2001.